1. O texto da revista era impositivo: a ciência já provou que a leitura torna o ser humano mais feliz. Quem lê está automaticamente mais contente com a vida. Melhor preparado para o combate e a dificuldade, mais habilitado a tomar decisões criativas. Seguiam-se dados recolhidos em estudos do cérebro e resultados a exames clínicos (ressonâncias, radiografias, etc.) revelando a geometria da alterações verificadas dentro da nossa cabeça quando lemos: são uma realidade em direcção à felicidade.(?)

A descoberta já produziu resultados concretos segundo depreendo de uma leitura algo fastidiosa porque a espécie de embriagamento que tantas vezes me pode trazer a leitura, casa mal — no meu cérebro, justamente — com explicações científicas e fundamentados progressos no conhecimento por formidavelmente úteis que sejam (e não podem deixar de ser).

O certo é que esta recente investigação sobre os benefícios da leitura originou até — e não deve ser o único — a abertura de um “centro de biblioterapia” em Londres, denominado “School of life”, que “prescreve” livros para ajudar a ultrapassar rupturas familiares ou sentimentais, lutos e penas, incuráveis desgostos, inadaptações.

Mas não foi preciso tanto a Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896 -1957), leitor compulsivíssimo e permanente. Na “Casa del Lector,” em Madrid, descubro quase por acaso uma surpreendente mas irresistível exposição consagrada ao autor siciliano. Documentos, rascunhos, cartas, canetas, livros da biblioteca do escritor, desenhos, objectos pessoais, fotos. Entre as quais uma vasta e deslumbrante colecção dedicada ao filme “O Leopardo”, de Visconti, segundo o livro de Lampedusa (e nunca na história do cinema um livro ficou tão imorredouramente impresso numa tela).

Apetecia passar o resto dos dias naquela sala. Para saborear com tempo e silêncio uma surpresa que me foi uma revelação: muito mais que o autor (tardio) de muito poucos livros — publicados postumamente — o que ali nos era dado a ver era a vocação e o fôlego do leitor: durante anos e anos, Lampedusa leu, leu muito, talvez tenha lido tudo. O seu “tudo”.

A sua quase veneração por alguns escritores levou-a a leccionar classes de literatura francesa e inglesa, elegendo para o efeito apenas um aluno, o jovem Francesco Orlando, talvez para que a intensidade do que sobre esses autores Lampedusa queria transmitir ficasse mais resguardada. Melhor entregue a um único aluno que a um friso porventura menos devoto a inclinar-se diante do altar da literatura. É sobretudo por entre a escolha desses eleitos de Lampedusa que esta pequena jóia expositiva circula, através de desenhos que retratam esses mestres, pequenas notas biográficas que os situam no tempo e na história da literatura, apontamentos de Lampedusa e bem aventurado Orlando que sorveu tudo isto.

Mais tarde o escritor siciliano voltou às suas amadas “licções” desta vez sobre literatura espanhola. O destinatário era agora um seu filho adoptivo, Gioacchino Lanza Tomasi, felizmente tão vivo hoje, que foi ele o comissário da mostra (com Mercedes Monmany), com essa superior vantagem de ter sido da casa e da família….

Fiz o que pude – e o que devia, como jornalista – para tentar entrar em contacto com ambos os comissários: poder perder-me em perguntas sobre Lampedusa e sobre os bastidores daquela “deambulação” magnífica, teria sido o mais adequado e, porque não? — mais merecido — happy end. A minha persuasão, que a mim própria me pareceu infinita, não demoveu nem comoveu ninguém: não estavam, não tinham os contactos pessoais, nada poderiam dizer.

Paciência, ficara com o melhor: a descoberta daquele ”leitor total”, como ali se chamava a Lampedusa. É desses leitores totais que se ocupa esta “Casa” onde se ensina a “ler bem”, que o mesmo é dizer a gostar de ler. Saí dali, sabendo que voltaria.

Instalada numa parte de um antigo e imenso matadouro hoje recuperado, a Casa del Lector pertence a uma Fundação dirigida por António Molina (intelectual respeitado e antigo ministro da Cultura num dos Governos do PSOE), e tudo lá se passa. Tudo o que se prenda com a paixão da leitura, espevite a sua curiosidade, anime o seu gosto, promova a sua necessidade: cursos de criação literária , exposições, conferências, aulas de edição, projecções de obras primas da música “para ler, ver e escutar”, sessões de “leituras poéticas”, cursos de promoção da leitura para “as primeiras idades”.

De tal forma que não posso senão terminar este apontamento como o comecei: tal como nos estudos que se fizeram dentro dos cérebros para avaliar o impacto da leitura nos comportamentos do ser humano, também dentro da Casa del Lector se descobriu que “leer bien es una buena herramienta para vivir mejor.”

2. E como falo de livros, de leitura ou da felicidade das palavras, lembro-me de Eduardo Lourenço que tão afectuosamente me fez chegar às mãos um belo objecto, de belíssimo nome, “La vie Écrite”. (Gallimard) que ainda cheirava a papel, dupla maravilha, já se vê.

A notícia aqui é a estreia de Lourenço no catálogo da editora francesa (com uma colectânea de textos que versam poesia e Europa, organizada por Luisa Brás de Oliveira). Mas tratando-se dele, a “notícia” para mim é sempre o próprio Eduardo Lourenço, portentosa personagem com efeito de permanente acontecimento.

Mas não o “ enfeitarei” com adjectivos ou ousando definições. Não evocarei Montaigne ou esse triângulo cujos vértices – Camões, Antero, Pessoa — sempre o enfeitiçaram e sobre os quais tanto elaborou. Nem chamarei aqui os filósofos e pensadores por onde navegou com a sabedoria do mais experimentado marinheiro de todos os mares.

Nem irei buscar essa Europa que simultaneamente o prende e desprende, como a que surge agora, em escolhidas reflexões produzidas nas últimas décadas, nas páginas da Gallimard. Nem o seu dom de se desmultiplicar em inclassificáveis incursões pelas mais diversas realidades, do ensaio à filosofia, à literatura, à arte, à poesia, à política, à musica.

Não abordarei enfim o génio, nem a erudição, nem a versatilidade, nem a insaciável curiosidade, pontos cardeais que julgo ver sobre a cartografia de Eduardo Lourenço.

Mas direi uma coisa, porque é dessa que sempre me lembro, a essa que sempre volto: ninguém nos esculpiu assim. Talvez mesmo ninguém, séculos fora — séculos, digo bem — tenha como ele, desvendado, dissecado, descodificado, desmontado esta coisa a que chamamos nós e se define por “identidade”. Este sermos daqui, da maneira que somos.

Eduardo Lourenço pensa-nos. Com o olhar de quem partiu, tendo sempre ficado. Sempre o fez mesmo quando nos leva para outras geografias ou nos desafia para o voo dos seus eleitos. Fê-lo reflectindo sobre o inteiro mistério que nunca até hoje deixou o espantar — e que por isso tanto o interpela — que é o de continuarmos de forma inverossímil  aqui, e Portugal também. Por entre meandros, sentimentos, labirintos , mitos, fantasmas, impérios levantados e perdidos e muita (inútil?) alma. Indecifráveis caminhos. pelos quais ele entra, carregando sem desfalecimento esta tão singular nossa forma de ser.

Percebendo-a furada. Desistente. Resistente. Melancólica. Heróica e desgraçada. Vencida. Crente. Nossa.

Alcançando tudo isso, explicando-nos tudo isso. Sem sombra de ilusão mas sem uma gota de fel. Antes, como dizer? com o mel de uma infinita e luminosa compaixão.

É por isso que gosta tanto dele.