A popularidade recorde do Presidente Putin na Rússia (89%, segundo as últimas sondagens) não é suficiente para acalmar a elite política russa quando algo começa de mal no país ou nos Estados vizinhos que fazem parte da sua zona de influência.

No passado dia 19 de junho, milhares de manifestantes ocuparam a principal avenida de Erevan, capital da Arménia, em sinal de protesto contra o aumento do preço da electricidade. No dia 23, a polícia carregou sobre os descontentes, tendo os confrontos provocado 25 feridos, o que não fez desistir os manifestantes.

No dia 25, o primeiro-ministro Ovik Abramian declarou que o seu governo não cederá a essa reivindicação, aceitando apenas a concessão de um subsídio às famílias mais carenciadas, proposta que não satisfez os manifestantes. Os protestos alargaram-se a mais cinco cidades e os manifestantes prometem continuar nas ruas.

Logo que as notícias de Erevan chegaram a Moscovo, os políticos russos reagiram com algum nervosismo. Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, declarou que: “esperamos que serão encontradas respostas a todos problemas em consonância estrita com a legislação vigente”, mas recusou-se a responder à pergunta sobre o desenvolvimento possível dos acontecimentos: “Não fazemos prognósticos”.

Porém, Konstantin Kossatchov, dirigente do Comité de Relações Internacionais do Conselho da Federação (câmara alta) do Parlamento Russo, apressou-se a acusar: “não excluo que, no fim de contas, por detrás destes acontecimentos esteja a mão de organizações não-governamentais estrangeiras”.

“E compreendemos que semelhante tipo de convulsões, se não forem tomadas medidas preventivas, também poderá acontecer no nosso país, e isso seria muito perigoso”, acrescentou.

Outro senador, Igor Morozov, vai mais longe e considera que os actuais acontecimentos repetem “à risca” a primeira fase do “golpe de Estado” na Ucrânia e sublinha que a representação diplomática dos Estados Unidos em Erevan “é das mais numerosas no estrangeiro”.

Segundo os jornalistas presentes nos locais, os manifestantes tentam não deixar rotular o seu protesto de “revolução florida”, evitam o aparecimento entre a multidão de bandeiras da União Europeia para não irritar o Kremlin, que vive obcecado com o perigo de “revoluções de veludo” não só no seu território, mas nos países aliados. A actual direcção arménia renunciou à assinatura de um Acordo de Parceria com a UE e aderiu à União Alfandegária sob forte pressão da Rússia. Erevan vê em Moscovo o seu principal aliado na disputa territorial com o Azerbaijão em torno do enclave de Nagorno-Karabakh.

A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, pela voz de Michael Georg Link, manifestou preocupação face à actuação da polícia arménia e lembrou que as autoridades do país devem “respeitar completamente os direitos dos participantes nas acções de protesto em Erevan “.

Num comentário editorial do jornal Gazeta.ru, escreve que se o Kremlin apoia o actual poder arménio só porque ele promete fidelidade, arrisca-se a sair desacreditado aos olhos dos insatisfeitos e a perder popularidade num país que constitui o único aliado fiel da Rússia na Transcaucásia.

Além disso, a continuação do confronto com o Ocidente pode dificultar ainda mais a capacidade russa de manter na sua zona de influência alguns dos países vizinhos. A instabilidade neles será mais um factor para adiar o “salto económico” que o Presidente Vladimir Putin bem prometendo há muito.