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“É tempo de abandonar a religião do ambientalismo e voltar à ciência do ambientalismo e basear as nossas decisões de políticas públicas firmemente nisso.”  (Michael Crichton)

Perdido em convulsões internas, o Dia da Árvore foi uma prova de vida para o PAN, resultando não só numa carta aberta da deputada Inês Real ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, como igualmente num apelo do PAN-Lisboa para que os seus seguidores inundem as caixas de email das Juntas de Freguesia (e que tal fazerem o cálculo da pegada ambiental?), pedindo o fim dos abates de árvores.

Há muito com que contestar Fernando Medina, como aliás qualquer autarca. Todos cumprem umas promessas e esquecem outras, todos fazem coisas melhores, outras piores, todos, mesmo quando fazem bem, não conseguem agradar a gregos e troianos. Mas acusar Medina de arboricida, roça o ridículo. Tais críticas são injustas e infundadas, e mesmo os mais distraídos lembrar-se-ão que Lisboa foi Capital Verde Europeia, que Monsanto é a primeira floresta urbana certificada na Europa, que aumentaram os espaços verdes, também com distinções europeias, por exemplo, ao nível das hortas urbanas, que foram plantadas nos últimos anos centenas de milhares de árvores, ou que a cidade é das poucas no país que tem aprovado um regulamento municipal em matéria de arvoredo.

O dito regulamento é um passo de gigante em matéria de gestão do arvoredo urbano. Efetivamente, especifica diversos e fundamentais aspetos, caso das medidas de proteção aquando da realização de obras, das atribuições de responsabilidades para efeitos de podas ou abates e formas de o empreender, das proibições, fiscalização e quadro contraordenacional, ou das normas para escolha de novos exemplares arbóreos.

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Que aqui ou ali não se cumpra? É algo transversal a qualquer disposição legal. O PAN tem atendido ao desempenho das “suas” medidas, tendo aprendido a lição que as coisas não ficam resolvidas com um qualquer produto legislativo? Porventura, já que até apoiou recentemente uma petição discutida na Assembleia da República visando harmonizar pelo país a regulamentação do arvoredo, à imagem da cidade de Lisboa.

Porque é consensual, sem divergências políticas, que muito pode e deve ser feito ao longo da vida das árvores, reduzindo substancialmente a necessidade de abates. O ambientalismo científico de que falava Crichton.

Já meter o carro à frente dos bois (acabar com abates sem todo o imprescindível trabalho a montante e que ainda assim nunca será total: a morte é a maior certeza da vida…) é, mais que o populismo de botar abaixo o bom trabalho desenvolvido por algumas autarquias nos últimos anos (sem serem legalmente forçadas a tal), expectável, no sentido em que é por ali que caçam votos, ma é sobretudo antiético, já que valoriza mais a manutenção de uma árvore em risco do que a vida de quem por baixo dela passe. Afinal de contas, para o PAN, eutanásia só mesmo em humanos. O tal ambientalismo religioso que ignora que de boas intenções está o inferno cheio.