“O bom jardineiro poda os galhos para não ter que cortar a árvore”
(Provérbio popular)

A existência de árvores traz reconhecidamente variados benefícios para as cidades. Efetivamente, entre os diversos serviços que nos prestam, contam-se:

  • serviços de produção, como por exemplo alimentos;
  • serviços de regulação, seja de inundações, secas ou doenças, amenização do clima ou melhoria da qualidade do ar;
  • serviços de suporte, como seja a formação de solo e seus ciclos de nutrientes, aumentando igualmente a biodiversidade;
  • serviços culturais, como seja o recreio, o valor espiritual e/ou religioso e outros benefícios não materiais, como seja o embelezamento das ruas, avenidas e jardins.

Não obstante, com a crescente convivência com árvores urbanas, aumentam igualmente as reclamações relacionadas com as árvores, sua presença ou manutenção, conflitos com infraestruturas (passeios, ruas, candeeiros, cabos, etc. ), além de riscos devido à queda de ramos, pernadas ou da própria árvore. Com efeito, as ocorrências de queda de árvores ou de partes de árvores constituem uma das principais causas de ferimentos em pessoas (por vezes até a morte) durante eventos extremos (Oliveira & Lopes, 2011).

Este risco é potenciado pelas difíceis condições que as cidades oferecem ao crescimento das árvores. Com efeito, clima, a luminosidade, as condições do solo e a qualidade do ar são mais restritivos em meio urbano e, por isso, desfavoráveis para o desenvolvimento da maior parte das espécies arbóreas. Igualmente a construção de edifícios ou de pavimentos causa a diminuição dos níveis das toalhas freáticas, a remoção da camada superficial e a compactação do solo, com consequências negativas para o volume de solo disponível, o teor de nutrientes e a permeabilidade do solo, restringindo as capacidades das raízes. Adicionalmente, a poluição do ar tem efeitos negativos, podendo até provocar o envenenamento das plantas por sais, gases e óleos. Para além disso, a própria manutenção, impactes físicos causados por carros, vandalismo, materiais de construção ou insetos e doenças constituem ainda fatores de adversidade que afetam as condições fitossanitárias das árvores em meio urbano.

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Não há muitas décadas, isto não era sequer assunto relevante: as árvores urbanas eram raras, e não faltava vandalismo sobre elas.

Hoje, contudo, a sua importância é inequívoca, havendo muita gente sensível a estas questões, a defender e fomentar árvores, há associações e plataformas, vemos árvores incluídas na maioria dos projetos urbanos, etc… De facto, a sua importância social, ficou demonstrada num inquérito aos lisboetas onde em 1000 respostas se obtiveram 762 positivas, considerando habitantes de diferentes idades e sexos (Soares et al, 2007).

Todavia, esta nova percepção, como de resto tem sido uma característica da emergência da consciência ambiental, tem conduzido a posições extremadas. Pior, muitas vezes pouco esclarecidas, como seja a repulsa a diversas operações, incluindo as podas.

Nesta matéria, espreitemos o que diz a Sociedade Internacional de Arboricultura (2008. Norma ANSI A300 & Best Management Practices Pruning of Trees):

Benefícios da Poda: Risco reduzido de quebra de galhos e tronco; Mais espaço para outras árvores,veículos, pedestres, redes de serviços; Melhores saúde e aparência; Melhor vista e beleza;

Consequências de não podar: Desenvolvimento de galhos baixos; Troncos codominantes e frágeis; Defeitos; Acumulação de galhos mortos. Problemas que podem levar a um risco grande de quebras/quedas.

É verdade que muitos dos inconvenientes resultam de escolhas mal planeadas e espécies inadequadas. Mas também é verdade que a gestão do arvoredo não trabalha com o ideal mas com o real, e a realidade é composta por uma herança arbórea, que inclui árvores a cobrir candeeiros, a bater em habitações, a tornar pavimentos escorregadios, etc., etc.

Pelo que, é entre o “preto” de quem só se preocupa com as árvores e os inconvenientes dos outros que se lixem, e o “branco” dos que as querem cortadas e as vandalizam ou matam, que a gestão do arvoredo se baliza. Felizmente, entre o preto e o branco, há todo um manancial de cores, do castanho dos troncos ao verde das folhas, do rosa das Olaias ao azul dos Jacarandás,  do vermelho das Romãzeiras ou do amarelo das Tipuanas.

Devemos ser exigentes, mas compreender as exigências, porque é unidos em vez de barricados que melhor conseguimos responder aos múltiplos desafios que se podem sintetizar por um termo hoje amplamente aceite: a “silvicultura urbana” que se define (Almeida, 2006) como “a arte, ciência e tecnologia de gestão das árvores e dos recursos florestais dentro e próximo do ecossistema urbano facultando à sociedade os benefícios das árvores ao nível ecológico, psicológico, sociológico, económico e estético”.