Em janeiro de 2017, Donald Trump tornou-se o mais velho homem a tomar posse como presidente dos Estados Unidos da América. Tinha 70 anos. Tudo indica que o recorde será quebrado quatro anos depois, à primeira oportunidade, por Joe Biden e os seus 78 anos. No Congresso, a Câmara dos Representantes é liderada pela octogenária Nancy Pelosi e o Senado por Mitch Mconnell, que tem a idade do presidente-eleito.

A geração de líderes que cresceu no período de prosperidade depois da Segunda Guerra Mundial é uma das mais impressionantes constantes da política americana, dominando o país desde os anos 90 através de personalidades tão diferentes como as de Bill Clinton e George W. Bush, Mitt Romney e Hillary Clinton, ou Bernie Sanders e John Kerry.

Mas a influência persistente de políticos nascidos na década de 40 é cada vez mais uma característica do excecionalismo americano. No Conselho Europeu, por exemplo, só um dos Chefes de Estado com assento pertence a essa geração – Nicos Anastasiades, o presidente cipriota que é também Chefe de Governo. Outros presidentes têm idade semelhante – desde logo o português -, mas, porque o tradicional sistema político europeu separa a chefia do Estado da chefia do Governo, o poder que exercem não é comparável ao do presidente americano.

Uma conclusão possível seria a de que os sistemas de pendor presidencial carregariam a responsabilidade de empurrar o poder para os mais velhos, mas essa teoria tem um problema francês: Emmanuel Macron foi eleito em 2017 com 39 anos e os habitantes do Eliseu saltaram completamente a década de 40, já que Chirac nasceu em 1932 e tanto Sarkozy como Hollande são homens dos anos 50 (em vários sentidos). Ainda assim, nenhuma explicação pode ser descartada pela existência de um comportamento excêntrico francês.

A verdade é que um regime de pendor parlamentar coloca os candidatos ao corpo legislativo especialmente dependentes do sucesso do líder do seu partido, o que cria uma pressão interna para eleger os que são capazes de entusiasmar, sobretudo na televisão, num sistema que tende a beneficiar os que são mais jovens, carismáticos e ágeis. Em eleições presidenciais, por outro lado, a idade avançada tem sido um trunfo mais do que um peso, mesmo quando não implica experiência política – é esse o caso do presidente Trump.

Numa altura em que o idadismo como discriminação dos mais velhos consome parte do discurso público europeu, a América mostra a debilidade de uma realidade oposta: a gerontocracia, o governo exercido pela oligarquia dos anciãos. Num país que conseguiu atrasar o declínio da taxa de fertilidade de forma mais competente do que os seus aliados ocidentais, é extraordinário que tanto da política, hoje, consista na tentativa, por vezes francamente embaraçosa, de convencer os jovens de que determinado septuagenário é suficientemente cool para ter o seu apoio, ao mesmo tempo que a renovação geracional dos líderes se atrasa por 30 anos. Tudo isso nos conduz a uma pergunta: e se o idadismo americano tiver um sentido diverso, significando o desprezo pelos mais jovens e a sua exclusão política e social?

Fora das campanhas eleitorais, a idade dos responsáveis políticos tem servido para justificar a inação perante a ameaça das alterações climáticas, a manutenção de um aparelho estatal pesado e concentrado em manter privilégios, mas também o desinteresse da classe política pela sensação geral de descontentamento, ansiedade económica e a preocupante dependência de opiáceos, temas que o candidato outsider Trump soube trazer para a arena política e usar a seu favor.

A distância entre eleitos e eleitores vai ainda mais longe, para lá da falta de relacionamento com adolescentes ou jovens de 20 anos. Num lugar em que a política se profissionalizou espetacularmente, exigindo um compromisso precoce e quase monástico, tornou-se também mais difícil compatibilizar essa carreira com as responsabilidades parentais. Envelhecidos e distantes da realidade familiar, os políticos americanos têm perdido a aprovação popular e conduzido o país a um bloqueio institucional. Mais do que polarizado, o Congresso simplesmente não se entende e a presidência tem funcionado autonomamente, por decretos de escopo limitado e rapidamente revogados sempre que há um sucessor.

Num artigo na New York Magazine, o colunista Josh Barro notava positivamente que, pela primeira vez em décadas, os americanos tinham escolhido um presidente sobre o qual um grande número de eleitores não tem opinião especialmente forte. Se nada mais, esse facto significaria uma mudança profunda na dinâmica política. No entanto, mesmo aceitando as vantagens dessa situação, o que a eleição de alguém como Biden parece significar é a decadência de um tempo, não a vitória harmoniosa da elite envelhecida. Por várias razões, a nova presidência deverá ser o momento final no declínio desta forma de organização política.

Talvez seja o momento de assinalar que esta crónica não pretende fazer militância pelo idadismo, um problema sério, com consequências muito mais importantes na sociedade do que na política ou nos partidos, e que parece ter sido a origem de opiniões mais inadmissíveis do que minoritárias durante a pandemia. Ainda assim, num continente fatalmente destinado a envelhecer e já tão desequilibrado no seu funcionamento político, seria negligente abdicar de compreender as razões do bloqueio americano.

Como é hábito, várias propostas foram aparecendo em resposta ao problema. Da diminuição da idade mínima para votar, uma ideia que ocasionalmente surge também em Portugal, à reconfiguração dos círculos eleitorais, passando ainda por sugestões mais criativas, como a de um “sistema de voto Demeny”, que consiste em atribuir um direito de voto às crianças, a ser exercido pelos seus pais enquanto estas não tiverem idade para o fazer por si. Na prática, mecanismos para aumentar a influência das famílias na política do país, sem garantias diretas de maior representação.

O envelhecimento das elites políticas não foi tema maior nas eleições da última semana e o resultado parece sugerir que a mudança virá, mas não será rápida. Uma vitória de Biden e os rumores de uma nova candidatura de Donald Trump em 2024 podem implicar um novo adiamento na carreira de políticos vistos como promissores na pista presidencial: Kamala Harris, Josh Hawley, Pete Buttigieg ou Nikki Haley, entre outros. Todos esses candidatos a candidatos têm fragilidades e estão longe de ser a garantia do resgate de um país que também parece incapaz de cumprir todo o seu potencial. Apesar disso, numa democracia, assegurar que todas as gerações têm uma oportunidade de governar é um princípio tão bom quanto os melhores.

João Diogo Barbosa, jurista (@jdiogospbarbosa no Twitter), é um dos comentadores residentes do Café Europa na Rádio Observador, juntamente com Henrique Burnay, Madalena Meyer Resende e Bruno Cardoso Reis. O programa vai para o ar todas as segundas-feiras às 14h00 e às 22h00. 

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