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Em O crepúsculo da democracia, Anne Applebaum descreve de que modo uma direita autoritária se tem vindo a afirmar no Leste da Europa, em particular na Polónia e na Hungria, com ligações que a jornalista regista também em Espanha, Inglaterra e Estados Unidos. Nos últimos anos, tem-se estabelecido o termo “democracia iliberal” para descrever este tipo de regimes, cujo qualificativo é usado com perícia por Viktor Orbán. Remetendo para um regime em transição que se diferencia dos valores que, desde a Segunda Guerra Mundial, se tornaram hegemónicos na Europa, esta forma de governo assentaria num princípio democrático – com escolha popular –, mas sem os princípios liberais clássicos, como a separação de poderes, a liberdade de imprensa ou a liberdade de expressão. Considerando a importância do líder neste tipo de regimes e o facto de tenderem a esvaziar a representação parlamentar, são também designados como regimes populistas de direita (radical ou extrema-direita).

Não por acaso, encontramos do outro lado da barricada política a mesma particularidade: os avanços da extrema-esquerda ou esquerda radical caracterizam-se igualmente por um profundo iliberalismo. Esse iliberalismo encontra-se na conceção identitária da política, nas limitações impostas pelo politicamente correto à liberdade de expressão, na ideia de que o pessoal é político. Essa esquerda iliberal, que a The Economist parece só agora ter descoberto, conseguiu avançar no Ocidente, sob a bandeira do progresso, uma agenda que relega para o domínio do inaceitável, bárbaro, reacionário ou fascista todas as posições que não subscrevem o discurso único dos seus valores morais.

De um lado e de outro, procura-se a vitória cultural, sabendo que essa vitória determinará o sucesso no plano político eleitoral. Afinal, este é o mecanismo que subjaz à lógica democrática, como notou Edward Bernays, em Propaganda: “A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e opiniões das massas é um importante elemento na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo oculto da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder de governo do nosso país.”

É este mecanismo do funcionamento democrático que está no centro da dinâmica das batalhas culturais: o objetivo é adquirir hegemonia cultural para determinar os valores dominantes e condicionar as instituições políticas. E é, por essa razão, que o papel da elite intelectual é tão relevante. Applebaum, na sua crítica aos novos autoritarismos, convoca La Trahison des Clercs, de Julien Benda, para fazer a crítica ao papel que tem sido desempenhado por membros da elite cultural e intelectual desses países. A traição consistiria no facto de pactuarem com os partidos e os líderes em ascensão, por forma a que novas molduras mentais (para recorrer a George Lakoff) reinterpretem a realidade de acordo com as novas convicções políticas. O mais recente exemplo dessa estratégia resultou na acusação, por parte de responsáveis da cultura eslovena, de que o governo de Janez Jansa tem promovido o afastamento daqueles que não estão do seu lado político – nisto consiste a luta pela hegemonia cultural.

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Mas este papel gramsciano não é exclusivo das elites intelectuais e culturais conservadoras do Leste da Europa – que respondem a um clima muito específico de trauma soviético. Como vimos na primeira parte destes textos, desde o final dos anos 60 que parte da academia norte-americana se envolveu na fabricação de uma mentalidade cultural específica, dando origem a um enorme fosso entre aqueles que frequentaram o meio universitário e o resto da população, cada vez mais excluída do novo mundo cosmopolita e globalizado. Como vem acontecendo em quase todos os países ocidentais, essa elite académica, os anywheres para usar a expressão de David Goodhart, encontra-se cada vez mais distante das pessoas comuns.

Em 1995, Christopher Lash designou esse afastamento como a “rebelião das elites”, justificando, ao estilo gassetiano, a ameaça que representam para a democracia: “As novas elites estão em rebelião contra a “Middle America”, como a imaginam: uma nação tecnologicamente atrasada, politicamente reacionária, repressiva na moralidade sexual, mediana nos gostos, presunçosa e complacente, maçadora e desajeitada.” A leitura de Lash ajuda a compreender a eleição de Donald Trump em 2016 e a agressividade das lutas culturais nos Estados Unidos: se as elites, na promoção do seu admirável mundo novo, se afastaram das pessoas comuns, despertaram uma contrarresposta conservadora e populista.

O reconhecimento das lutas culturais que temos vindo a descrever revela-se fundamental para a compreensão dos muitos acontecimentos com que nos confrontamos hoje. Isto porque quase todos os temas em torno da identidade, sexualidade, educação têm na sua base esta disputa de valores. Nos Estados Unidos, os exemplos são muitos e vão desde a exclusão de certos livros em contexto escolar por transmitirem ideias erradas ou usarem linguagem desadequada, à discussão em torno da admissibilidade de homens transgéneros participarem em competições desportivas femininas e à disputa em torno das leis sobre o aborto. No Canadá, podemos pensar nas regras que visam regular o uso de pronomes e que consagrou a figura de Jordan Peterson como um dos intelectuais mais influentes dos nossos tempos. No Reino Unido, o policiamento permanente das redes sociais em busca de expressões proibidas criou um clima claustrofóbico de repressão. Em Itália, a recente oposição do Vaticano ao projeto-lei que visa combater a homofobia e, na Hungria, as designadas leis homofóbicas devem ser contextualizadas na dinâmica mais ampla das lutas culturais.

Entre nós, os últimos anos têm sido marcados por temas igualmente polémicos: em 2019, a discussão em torno das casas de banho para transgéneros nas escolas; em 2020, o debate em torno da obrigatoriedade da disciplina de Cidadania; neste ano, a introdução da ideia de “aprendizagens essenciais” nos programas escolares. Embora cada uma destas temáticas seja apresentada sob a capa do moralmente evidente (os adolescentes transgéneros devem ter um espaço que salvaguarde a sua privacidade; a cidadania deve ser alvo de intervenção escolar; os programas educativos devem refletir mudanças sociais), nenhuma delas pode ser devidamente compreendida sem a consideração das disputas culturais e morais que as antecedem. Afinal, os nossos valores culturais e morais e os nossos projetos sociais são hoje, talvez mais do que nunca, resultado das lutas pela hegemonia cultural.