E vamos no segundo estado de emergência outonal consecutivo. Seguramente, se houver vontade de fazer alguma coisa em termos de controlo de comportamento populacional, teremos renovações até à Primavera. Isto, claro está, se os legisladores não avançarem com medidas legislativas de fundo para a saúde pública, o que poderá passar, dizem os juristas mais rigorosos, por uma revisão da Constituição.

Entretanto, o nosso Governo avançou com um conjunto de medidas a que falta alguma explicação de racionalidade. Não percebemos, ninguém terá percebido, onde está a eficácia do encerramento de estabelecimentos depois das 13 horas de sábados, domingos e feriados. Lembra-me uma daquelas medidas terapêuticas em que se reduz a dose e só restam os efeitos secundários, sem que se veja benefício terapêutico.

Quanto ao resto, de mal a pior. O Serviço Nacional de Saúde vai esbracejando, suportado pela dedicação de quem lá trabalha, mas a verdade é que já estamos para lá do recomendável há muito tempo. E não digo para lá do possível, porque para quem trabalha na saúde não há impossíveis. Há pior, menos bom, mas nunca há o nada. Nem que seja pela palavra de conforto e é aí que quase chegámos.

Não é justo atirar pedras a quem decidiu comprar Remdesivir. Foi uma decisão política tomada num momento em que há orientações para todos os gostos e a Agência Europeia de Medicamentos ainda mantém a indicação de tratamento de doentes graves ou muito graves com pneumonia por SARS-CoV2. Se não se tivesse assegurado a compra, não faltaria quem viesse criticar a ausência de acção.

Há que reconhecer que o Ministério da Saúde e o Governo estiveram comunicacionalmente melhor do que em semanas anteriores. Ou será que os ouvi menos, cansado como todos?

Cuidado, muito cuidado, com o que se disser sobre vacinas. Não criem expetativas que não possam cumprir. Não transformem a vacinação em panaceia, mesmo que seja a medida de profilaxia mais necessária e, porventura, a melhor. Acima de tudo, quando se começar a vacinar não criem e propalem a ideia de que já não é preciso usar máscara, distanciar e confinar.

Mas voltemos aos confinamentos parcelares. Concordo, em absoluto, com diferenciação geográfica. É aí que está o “parcial”. Não posso concordar, escrevi em cima, com confinamentos populacionais por horas. O único confinamento que poderá funcionar será o recolher obrigatório geral nas zonas de maior carga infecciosa populacional. Daí o meu espanto na definição de zonas de risco elevado e muito elevado para não as distinguir nas medidas a aplicar. Fica-se com a impressão de que foi um esforço taxonómico para mostrar serviço, sem a intervenção proporcional ao risco estimado.

E, por favor, não façam previsões de “pico”. É tudo fantasia para encher espaço. A progressão da epidemia depende de condições biológicas do vírus, do número de infectados potencialmente transmissores, dos contactos, da imunidade e da quantidade de vírus em circulação. São coisas a mais para se poderem fazer, com alguma estabilidade, modelos confiáveis. Basta que o controlo de contactos não funcione e a imunidade não se instale para sair tudo “furado”. Na dúvida, e para lá do que for julgado como um “pico”, mantenha-se seguro, com máscara, lave as mãos e evite contactos desnecessários.

Os meios de comunicação social continuam fazendo o seu melhor, a tentar informar e descodificar o que as autoridades decidem e não explicam. Para isso, porque peritos não abundam, lá vão contribuindo para a proliferação de epidemiologistas e virologistas e sei lá mais o quê que nunca viram (no sentido clínico do termo) doentes e muito menos os trataram. Falam de cátedra, com pergaminhos que não servem para o momento que se vive e sobre uma doença que nem os médicos conhecem em detalhe suficiente. Nisso, a Dra. Graça Freitas tem razão. Fala-se demais e ela própria tem sido vítima disso mesmo.

Não faço coro com os que têm pedido a substituição da Senhora (com maiúscula, certamente) DGS. A Dra. Graça Freitas é uma profissional de mão cheia, incansável, estudiosa, muito sabedora e eficiente. Tem “culpa” de muito menos do que a culpabilizam. Excepto da atrapalhação na comunicação. Cometeu dois erros. O primeiro erro foi ter aceitado vir todos os dias, seja como for, ser a porta-voz da crise, comentar uma contabilidade de utilidade pública quase nula (insisto neste ponto. Para que nos interessam os “recuperados”? Ou os mortos se não percebermos como morreram?) e apresentar medidas para as quais ainda não há sustentação científica, nem poderia haver. Não deveria ter assumido um papel em que não consegue casar a escassa evidência disponível com a necessidade de dizer alguma coisa. O caso das máscaras (sim ou não?), da quarentena das crianças retiradas à família pelos serviços sociais, ou as mais recentes e menos felizes declarações sobre a hipotética falta de patriotismo de quem criticar os sistemas nacionais de informação sanitária, são apenas três exemplos. O segundo erro, a verdadeira “culpa” da Senhora DGS, foi ter aceitado ser um instrumento político mais do que um agente técnico. Mas a culpa real é de quem se escuda atrás da DGS, da administração pública em geral, para disfarçar incompetência e ignorância. Quem é quem? O Governo, pois claro, com António Costa no comando e Mário Centeno, não nos esqueçamos dele, que fez da governação a arte de cativar. A Senhora DGS não sabe fazer política, não é esse o seu papel. Tirem-na do “ar”, mas não do lugar. Espero que depois de tudo isto, ainda que tarde, o Governo perceba que não se pode substituir pela administração pública, no que à condução política diz respeito. Seria um maravilhoso contributo da pandemia.