Estamos habituados a falar das melhores empresas do mundo, a querer conhecê-las ou saber mais sobre elas, até para nos candidatarmos a trabalhar nessas mesmas empresas, mas perdemos menos tempo a pensar quais são as melhores empresas para o mundo.

Do mundo ou para o mundo? Eis uma grande questão que hoje em dia se coloca cada vez mais no universo corporativo, no conjunto de empresas que geram lucro, fazem negócio, têm business plans afinados e apostam em responder positivamente aos acionistas e aos clientes. Ou seja, não se trata de organizações sociais sem fins lucrativos.

As melhores empresas do mundo não são necessariamente as melhores empresas para o mundo. Sabemos isso há muito tempo, ainda a Greta Thunberg não era nascida.

O que muitos não sabem é que há cada vez mais empresas certificadas como as melhores para o mundo! Ainda não estamos a falar de uma cultura dominante no universo corporativo, note-se, mas já é uma cultura emergente, com grande impacto nas realidades e culturas que estas mesmas empresas tocam.

Estamos a falar de cerca de 3 mil Benefit Corporation — as chamadas B Corps — que existem em 50 países. Para ser exata e porque há números frescos, desta semana, até ao dia de hoje foram certificadas 2917 empresas B, mas há milhares de outras que já começaram a usar as ferramentas de evolução fornecidas pelo B Lab que, se forem bem usadas, lhes darão direito a serem certificadas.

Uma Empresa B não é uma IPSS, insisto, e é importante fazer esta distinção, pois as B Corp pertencem estritamente ao universo corporativo. Assim sendo, uma B Corp é uma empresa lucrativa que tem como modelo de negócio o desenvolvimento social e ambiental. O conceito, que já gerou um movimento global, nasceu nos EUA, em 2006 e foi criado pela B-Labs, cujo core business era redefinir a noção de lucro e sucesso na empresa.

De acordo com a declaração oficial deste movimento mundial, uma Empresa B cria benefícios a todas as partes interessadas e não responde apenas aos acionistas. Nesta lógica, são tão importantes os shareholders como os stakeholders. A empresa tem que ser lucrativa, mas também tem que acreditar que o lucro não serve apenas para devolver mais valias aos acionistas. Todas as partes interessadas devem ser envolvidas no processo de tomadas de decisão e a empresa tem que gerar ‘externalidades positivas’. Ou seja, devolver à sociedade coisas boas, para usar uma linguagem corrente e sair do jargão economês.

Dar de volta à sociedade é, em síntese, a essência das B Corps. Gerar lucro para os acionistas é e será sempre legítimo, mas não chega. Tornou-se imperativo ‘pagar’ à sociedade, criar mudança, gerar mais valias para as comunidades. Em Portugal temos quase uma dezena de B Corps, mas muitas outras empresas lucrativas começam a dar passos para poderem vir a ser certificadas e já estão a usar as ferramentas de gestão que se aplicam em 5 áreas, a saber: governance, ambiente, trabalho, sociedade e clientes.

Se hoje escrevo sobre o conceito e sobre este movimento mundial que segue o modelo de capitalismo consciente, é porque o conheço há 5 anos e tenho acompanhado a sua evolução no país, mas também porque me faz sentido contribuir para dar a conhecer esta realidade. E não só, pois associado às B Corps há um outro movimento: o dos profissionais que querem fazer carreira e evoluir numa empresa onde são respeitados valores fundamentais como a ética, a transparência, a sustentabilidade e a eficácia. Há já um sem número de possibilidades de postos de trabalho para quem acredita que as empresas podem e devem gerar múltiplos lucros.

No B Work há ofertas de trabalho em muitas das 3 mil empresas que foram certificadas e é interessante observar também o movimento de parcerias que as empresas geram entre si. A Ben & Jerry’s, por exemplo, criou um gelado de cerveja só por ter uma parceria especial com uma marca de cervejas e isto gerou um pico de lucro que também rendeu para os projetos sociais que a empresa sustenta. Um dos exemplos mais criativos de B Corp é a Tony’s Chocolonely, uma empresa holandesa que fabrica chocolates 100% slave free e fatura anualmente cerca de 40 milhões.

Tony, o fundador interessou-se pela questão da escravatura infantil e denunciou uma série de plantações de cacau onde as crianças e jovens são obrigados a trabalhar em condições infra-humanas. Adotou práticas de comércio justo e criou uma variedade de tabletes de chocolate que começaram por ser encarnadas, para servirem de cartão vermelho à indústria de chocolate que ainda vive deste tipo de escravatura. Os próprios chocolates não são divididos em quadrados ou retângulos simétricos, como é habitual. A divisão é completamente assimétrica para sublinhar todas as assimetrias que ainda são a marca da distribuição desigual das riquezas no mundo.

Estes e outros exemplos dão que pensar e mostram que se está a tecer um novo tecido empresarial apostado em contribuir com a sua parte para que os lendários SDG – Sustainable Development Goals proclamados pelas Nações Unidas, possam vir a ser cumpridos. Claro que podemos olhar para as B Corps que já existem como se olha para um copo de água meio cheio. Alguns verão que apenas existem 3 mil, mas outros conseguirão ver que se já há 3 mil empresas boas para o mundo, muitas mais se seguirão!