Rádio Observador

Crónica

As qualidades das qualidades

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Uma acção generosa a que se chega depois de uma análise ponderada tem qualquer coisa de deliberado que a faz parecer-se com a avareza; e pensar em ter coragem é uma variedade de cobardia.

A santidade de um santo provoca reacções de impaciência; e a sujidade de um santo não suscita considerações sobre padrões de higiene. Sendo incontroversamente a santidade boa e a sujidade má, será que as qualidades têm defeitos, e os defeitos qualidades? A pergunta exprime uma visão sombria: sugere que até as qualidades têm defeitos; e mesmo os defeitos têm qualidades. Dá vontade de supor que uma qualidade em estado puro (como a santidade) pode ser um defeito; e que um defeito inequívoco (como a sujidade) terá aspectos admiráveis.

Esta visão sombria levou alguns a imaginar que dizer que alguém tem uma qualidade é realmente dizer que essa pessoa ocupa um ponto intermédio entre dois defeitos. Uma pessoa será considerada generosa quando não é avarenta nem perdulária; e corajosa quando não é cobarde nem temerária. Não pode ser santa ou suja excepto por excesso, por fúria, ou por doença. A alguém muito limpo recomendar-se-á que seja mais sujo; e a alguém extraordinariamente mau que seja mais santo. Recomenda-se em qualquer caso que todos façam alguma coisa consigo, e que se tratem; o tratamento consiste em dosear em cada caso a porção certa de cada qualidade, como quem regula o termostato de um forno.

A teoria parece excelente, mas não é boa. A ideia de regular as nossas qualidades não é compatível com a intuição mais básica sobre qualidades, nomeadamente a de que são coisas que se têm. Faz também confusão a ideia de que seja preciso regular qualidades. Uma acção generosa a que se chega depois de uma análise ponderada tem qualquer coisa de deliberado que a faz parecer-se com a avareza; e pensar em ter coragem é uma variedade de cobardia. Além disso, as situações que requerem as maiores qualidades não dão geralmente tempo para determinar o equilíbrio perfeito entre os defeitos de que nessas alturas nos deveríamos afastar.

Se as nossas qualidades são coisas que temos, serão com certeza diferentes de não ter defeitos. Não as teremos como quem tem um fígado, ou dois pulmões, ou vinte dedos; mas pelo menos como quem é gago, tem sardas ou pé chato. As qualidades são peculiaridades, coisas que são próprias de quem as tem. O que fazemos quanto a elas fazemo-lo depois de já as termos; e apenas porque as temos.

A ser assim, as nossas qualidades não serão realmente mérito nosso. Isso explica a modéstia que tantas vezes se observa nas pessoas corajosas, justas, espertas e generosas. A essas pessoas não ocorre a possibilidade de haver um termostato dentro de si, e portanto alguma coisa para regular; não são dadas à deliberação. E, tal como ao resto de nós não ocorre que ser gago seja uma questão de mérito, pouco lhes ocorre a elas que o que têm sejam qualidades.

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