Rádio Observador

Viana do Castelo

As rãs e o prédio Coutinho

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Sobra a questão: como pode isto acontecer num Estado dito de direito? E não só isto, mas toda a arbitrariedade estatal e impunidade dos detentores de cargos públicos que constantemente é noticiada?

A monstruosa arbitrariedade do Estado português, que vende um terreno em Viana do Castelo para construção, aprova o projeto e licencia a edificação de um prédio semelhante a tantos outros em Lisboa e no Porto e, uns anos depois, vem dizer que aquilo é um aborto arquitetónico que tem de ser expropriado por tuta e meia e destruído já foi sobejamente exposta (aqui). A hipócrita indiferença de ativistas e bispos, e outras almas generosas e empenhadas, geralmente muito sensíveis às longínquas e fabulosas violações de direitos humanos nos Estados Unidos e em Israel, para com as violações estatais dos direitos constitucionais à propriedade e às “condições de higiene e conforto” habitacionais dos resistentes do prédio Coutinho também já foi denunciada (aqui e aqui).

Sobra a questão: como é possível que isto aconteça num Estado dito de direito? E não só isto, mas toda a arbitrariedade estatal e impunidade dos detentores de cargos públicos que constantemente é noticiada?[nota 1] Será que vivemos num despotismo asiático ou num absolutismo pombalino? Ou será simplesmente que pomos a nossa esperança onde a não devemos pôr e não aprendemos com os antigos? Esopo conta o seguinte:

“Chegou um tempo em que as rãs ficaram insatisfeitas por não terem ninguém que as governasse. Decidiram então enviar a Júpiter uma deputação a pedir-lhe que lhes desse um Rei. [nota 2] Júpiter, desprezando a insensatez do seu pedido, atirou um tronco velho para o lago onde elas viviam, e declarou-lhes: ‘Eis o vosso Rei’. As rãs ficaram inicialmente aterradas pelo estrondo e ondular que o tronco fez ao cair na água, de tal modo que que se esconderam nas profundezas mais esconsas do lago. Mas, pouco a pouco, ao verem que o tronco permanecia imóvel, uma por uma começaram a aventurar-se à superfície, & com a passagem do tempo, ganharam coragem & começaram a desprezá-lo de tal modo que até começaram a sentar-se em cima dele. Considerando que um Rei daqueles era um insulto à sua dignidade, enviaram a Júpiter nova embaixada, & rogaram-lhe que lhes tirasse o lerdo Rei que lhes tinha dado & lhes concedesse outro mais vigoroso. Júpiter, aborrecido de ser incomodado deste modo, enviou-lhes uma cegonha para as governar. Esta, assim que chegou, começou a comer avidamente as rãs uma a uma.”

E será que a nossa cegonha tem falta de apetite, ó rãs?

(O avtor não segve a graphya do nouo Acordo Ørtvgráphyco. Nem a do antygo. Escreue como qver & lhe apetece.)

[nota 1] O largo espetro de arbitrariedade e impunidade de baixo valor acrescentado vai desde aquela que põe a polícia na estrada a penhorar automóveis de quem se atrasa em pagamentos ao fisco mas permite atrasos de meses na atribuição de reformas, passa pela isenção do IVA aos os partidos e o “reembolso” a deputados por viagens não realizadas, até à endogamia governamental com empregos políticos e técnicos no aparelho de Estado. [nota 3] Casos de corrupção de alto valor acrescentado, certamente na memória do leitor, são óbvios demais para merecer menção.
[nota 2] Rei: indivíduo do sexo masculino que representa e personifica o Estado e é a sua cabeça, embora o próprio frequente e figurativamente não a tenha. Na Suécia são brancos e na Swazilândia são pretos, facto que demonstra o racismo endémico existente no norte da Europa e a inclusividade e harmonia racial que caracteriza o sul da Africa. Desde tempos remotos que se acredita que a imposição das mãos por el Rei é cura santa, quando medicina e SNS falham, como testemunha o Doctor em Macbeth (Ato 4, Cena 3):
“Ay, sir; there are a crew of wretched souls
That stay his [el Rei] cure.
Their malady convinces
The great assay of art, but at his touch
Such sanctity hath heaven given his hand
They presently amend.”
A crença de que numerosas doenças incuráveis podem ser saradas através do toque das mãos d’el Rei (para quem ainda não percebeu o que Rei simboliza neste artigo, aqui fica a resposta: o Estado) não desapareceu com a implantação da República, apenas se transferiu para o Presidente, uma espécie de Rei com prazo de validade, tal como os iogurtes. Provam-no as filas de dignatários do regime que se formam em cerimónias oficiais para o aperto de mão do Chefe do Estado, ou os magotes de populares que se juntam espontaneamente para o mesmo efeito sempre que Sua Excelência deixa os palácios estatais. Entretanto, o ceptro que representava tradicionalmente a autoridade e poder d’el Rei, foi recentemente substituído por uma geringonça que gera sefies, que funcionam como atestado de saúde que justifica a falta ao emprego (mas apenas no caso dos funcionários públicos).
[nota 3] A sub-representação de minorias étnico-raciais na vida pública, política e económica, a crise nacional do momento, certamente será resolvida de modo mais radical e efetivo, não pela introdução de quotas nos cursos universitários ou assentos parlamentares, mas pela imposição de quotas étnico-raciais nos afilhados, primos, irmãos e outra parentela dos dirigentes do PS.
[nota final] O PAN, será um partido defensor das rãs ou das cegonhas?

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