Nos Souvenirs, Tocqueville conta um seu encontro com o irmão e a cunhada no início da revolução de 1848. A cunhada tinha, como de costume, perdido a cabeça e só conseguia imaginar o marido assassinado e as filhas violadas. Tocqueville lamenta o facto de as desgraças do país não despertarem nela qualquer sentimento, excepto no que tocava à sua família mais próxima. O seu espírito tinha minguado e o seu coração esfriado: “a mais honesta mulher e a pior cidadã que se podia encontrar”. Resumindo: “Era uma mulher de uma sensibilidade demonstrativa, em vez de extensa e profunda”.

Há, é claro, muita gente assim, e o mínimo que se pode dizer é que o contacto com as sensibilidades demonstrativas pode provocar um certo incómodo. Tudo se parece reduzir ao caudal de sentimentos próprios, sem intromissão alguma da mais ténue reflexão sobre o mundo exterior. O domínio do privado ocupa todo o espaço da realidade e é exposto de uma forma invariavelmente exaltada e avassaladora. Para mais – e aqui entro em algo que Tocqueville não menciona, mas que sempre me pareceu estar no centro de tal atitude -, há muito de artificial na coisa. As sensibilidades demonstrativas, sob a capa de uma aparente autenticidade, possuem na verdade uma natureza profundamente mimética, e por isso mesmo se confundem, nos seus gestos essenciais, umas com as outras. De facto, obedecem a um modelo que lhes diz como se devem comportar, como devem sentir, e seguem à risca esse mesmo modelo, fazendo-o movidas por um forte sentimento de obrigação. Exibirem os tormentos da sua própria individualidade, nomeadamente na sua preocupação em relação aos outros, é mais um imperativo social do que outra coisa. Há, por definição, algo de falso nelas, como se a profundidade e a intensidade dos sentimentos fosse apenas aparente e inconscientemente destinada a esconder a sua intrínseca superficialidade. No fundo, há apenas o Eu, o “detestável Eu” de que falava Pascal.

Toda a gente encontra na vida sensibilidades demonstrativas, e, de qualquer maneira, a televisão encarrega-se de as mostrar quotidianamente. Os reality shows (na versão original ou em qualquer dos seus avatares) são delas feitos do princípio ao fim e muito do resto que a televisão exibe obedece a idênticos princípios. O jornalismo, sobretudo o televisivo, cai na sensibilidade demonstrativa a toda a hora sob a forma de um lirismo de pacotilha que se manifesta na mínima notícia. Os altos sentimentos dos jornalistas não hesitam em exprimir-se nos mais ínfimos detalhes, não vão os espectadores pensarem que eles são um bando de criaturas sem coração. Pelo caminho, como é óbvio, a objectividade torna-se uma missão impossível. Não há nada como a ânsia de testemunhar solidariedade para fazer suspeitar a omnipresença do egoísmo piedoso.

O que é curioso é notar a forma como a sensibilidade demonstrativa invadiu o campo político. Não é nada de absolutamente novo, é claro, a sensibilidade demonstrativa sempre foi um ingrediente necessário da demagogia, mas nos últimos tempos atingiu proporções nunca vistas. Aparentemente, trata-se de algo paradoxal.  A cunhada de Tocqueville, “a pior cidadã que se podia encontrar”, reduzia a sua preocupação com o mundo à preocupação com o seu círculo familiar mais íntimo. Ou melhor: à maneira como esse círculo exprimia a essência do seu próprio ser, existia enquanto visível veste do seu ser. Ora, os políticos não falam de si, falam da sociedade. As desgraças do país merecem-lhes sentimentos em doses cavalares. Parece haver aqui uma contradição.

Mas a contradição é mesmo só aparente. Um político, sobretudo por estes dias, pode, por assim dizer, fazer a ponte entre as profundidades expressivas do seu Eu, colocadas no centro de tudo, e o seu discurso sobre a sociedade. Tudo está em sublinhar a radicalidade emocional deste último. Como se a urgência das suas convicções tivesse origem em predicados originais e inabaláveis da sua alma. Como se tudo lhe viesse directamente, sem mediação, do coração. Como se o seu irreprimível amor pela justiça não fosse mais do que a manifestação visível e terrena de uma natureza íntima admirável. Deste modo, deixa de haver qualquer contradição entre o egoísmo piedoso e a mais indomável solidariedade com os mais desfavorecidos. A sensibilidade “extensa e profunda” não é senão um veículo conveniente e extraordinariamente eficaz para a sensibilidade demonstrativa.

Se me pedissem um exemplo deste fenómeno, não hesitaria um instante em escolher um nome: Catarina Martins. Não há vez em que fale em que as suas alegrias e tristezas políticas não pareçam vir-lhe dos recantos mais secretos da sua alma. Tudo no seu discurso é urgente, de uma urgência que atesta a todos a sua perfeita autenticidade. A mágoa que lhe inspiram os males do país e do mundo, uma mágoa que só pode revelar a bondade essencial do seu ser, tal como o beatífico sorriso com que orna cada declaração de vitória numa “luta” a que essa mesma bondade necessariamente a conduziu, tudo isso são sinais indisputáveis de uma muito apurada sensibilidade demonstrativa. Ninguém me tira da cabeça que uma boa parte do sucesso recente do Bloco, que muito se deve a ela, pode ser posto na conta da receptividade que a sensibilidade demonstrativa merece no jornalismo, que, como disse atrás, a ela recorre frequentemente. E também, convém admiti-lo democraticamente, numa parte da população que os reality shows educaram como modelo de comportamento.