1 Já fui vacinado contra a Covid-19. Estou bem e de boa saúde. Apenas tive ligeira dor no local da picada, que ainda durava 24 horas depois, como é habitual em injeções num músculo. Sem mais.

2 Decidi vacinar-me porque os dados publicados para as vacinas da BioNTech e Moderna são convincentes. O resumo de características do medicamento para a COMIRNATY da BioNTech, a vacina que me administraram, e toda a outra informação fornecida FDA e EMA é clara e tranquilizante até onde pode ser. Certamente, como acontece com qualquer medicamento novo, poderão existir riscos não antecipados. No entanto, o benefício potencial das vacinas com mRNA (um modelo de extrema elegância conceptual e com pragmatismo e flexibilidade adaptativas sem igual) é muito superior a qualquer risco conhecido ou até imaginável. A experiência acumulada com vacinas para a Covid-19, já na ordem das dezenas de milhares de administrações, reforça a ideia de segurança com estas vacinas. Podem acreditar que há possibilidades terapêuticas por desenvolver com a tecnologia de inserção celular de mRNA. O limite poderá ser o Céu e com o advento desta forma de produzir tratamentos proteonómicos, aqueles que envolvem a síntese proteica sem modificação do genoma nuclear, muito mudou e ainda mudará nas capacidades terapêuticas da medicina. Temos matéria para Prémio(s) Nobel.

3 Deste esforço investigacional e operativo da engenhosidade humana, evidentemente começado muitos anos antes da Covid-19 e aproveitando a oportunidade que esta doença gerou, resulta claro que à indústria farmacêutica, muitas vezes justamente diabolizada e outras tantas injustamente perseguida, a humanidade fica mais uma vez a dever a sua “salvação”. Esta indústria, a dos remédios, que tantos pecados já cometeu e vai cometendo, com especial destaque para o da ganância, é a demonstração de que à iniciativa privada, atenta, vigilante e inovadora, desde que a regulação pública funcione, as pessoas deverão tanto quanto, pelo menos, devem aos Estados. A vacina para a Covid-19 é um bom exemplo do que deve ser a cooperação entre público e privado. E, já agora, também há a lição de que ser primariamente xenófobo pode ser, além de estúpido, altamente prejudicial para quem não acolhe emigrantes e para todo o mundo. A melhor medicina e investigação científica resultam de verdadeiros “conglomerados” de saberes multiétnicos. Uma evidência que, infelizmente, ainda não será evidente para todos.

4 Logo, a minha recomendação é de que todos os que tiverem indicação devem aceitar ser vacinados para prevenção da Covid-19. Consequentemente, a vacina dever ser tornada acessível em todo o planeta e não apenas a privilegiados.

5 A vacinação para a gripe – época sazonal de 2020-21 – não foi um fiasco sanitário.  Também fui um dos que foram vacinados. As contas não estão encerradas e devemos esperar pela análise do Instituto Nacional de Saúde habitualmente publicada na primavera/verão do ano seguinte, neste caso em 2021, para se poder avaliar o seu real sucesso. Se quase 25% da população residente em Portugal tiver recebido vacina anti-gripe terá sido excelente. A “falha”, recorrente desde que a vacina é gratuita para os mais velhos, foi não termos assegurado os 65% de cobertura na população com idade igual ou superior a 65 anos. Esta é uma matéria que exige melhor e mais precoce projeção de quem deve ser convocado para vacinação e a inclusão da rede de farmácias em toda a planificação e execução da dispensa gratuita aos grupos com esse benefício. A listagem e a consequente convocação de pessoas com indicação falha sistematicamente, o que tem de ser alvo de melhorias e vai ter, não vale a pena escamoteá-lo, impacto no programa de vacinação anti-SAR-CoV-2.

6 A campanha de vacinação contra a gripe deste ano foi um embaraço político. Outra vez com má comunicação e excesso de propaganda, embora já se sabendo que não haveria vacina para todos. Nunca há e nem é preciso que haja. Na verdade, sendo uma vacinação recomendada a profissionais de saúde, nem esses aderiam habitualmente a esta forma de prevenção primária na dimensão em que deveriam fazê-lo. Era habitual sobrarem vacinas. Mas daí, da expetativa de excesso de oferta, até transmitir a ideia de que haveria vacina para todos que a quisessem foi um enorme disparate do início do programa vacinal. Disparate tão grande que ofuscou o facto, digno de apreço, de o ministério da saúde até ter comprado significativamente mais vacinas para a influenza do que em anos anteriores. E não foi só o ministério da saúde que faltou à verdade. A ânsia de falar é “universal”.

7 Por isso, para evitar falar demais, é imprudente tecer considerações de efetividade sobre as vacinas face ao seu potencial de imunização contra as variantes do SARS-CoV-2. Não se pode dizer que não têm importância nenhuma, como será errado afirmar imediatamente que estar a vacinar com os antigénios disponíveis será desperdício. É preciso esperar para observar, medir e concluir. Note-se que a tecnologia de fabrico de mRNA permite retificações e ajustes relativamente rápidos. Para as vacinas com vetor viral, como a da AstraZeneca, não sei a resposta. Não se sabe se a vacina terá de ser repetida anualmente ou com outra periodicidade.

8 O processo de constituição de uma comissão para tratar do problema da vacina para a Covid-19 tem erros de base. Com o devido respeito pelo Dr. Francisco Ramos, meu amigo, pessoa de inegável competência e sensatez, cuja capacidade de liderar a comissão não questiono, a composição da dita é um cocktail de “representantes” que não lhe assegura credibilidade. Nem se percebe como lhe foi atribuída a tarefa de definir quem deve ser vacinado e quando. Esse trabalho, o de perspetivar indicações e prioridades, deveria ter ficado na DGS onde sempre esteve para todas as outras vacinas. Foi a passagem de mais um atestado de incapacidade à Senhora DGS ou outra assunção que a Direção-Geral está descapitalizada em meios técnicos e humanos?

9 A estratégia para o plano de vacinação contra a Covid-19 em Portugal foi apresentada com racional justificativo muito pobre e apenas duas referências bibliográficas. É assim, porque sim. A referência mais importante do Plano é o estudo de Peixoto et al. (Peixoto VR, et al. Covid-19: Determinants of hospitalization, ICU and death among 20.293 reported cases in Portugal. MedRxiv 2020), ainda não peer reviewed e que apenas serve, já é muito, para confirmar que os mais velhos, acima dos 50 anos, têm maior probabilidade de ser internados e de morrer. As conclusões sobre doenças associadas sofrem de enormes limitações que resultam do registo e análise aglomerada de patologias registadas na admissão hospitalar sem qualquer ajustamento de risco. A informação não estava imediatamente disponível e não pôde ser procurada. Basta comparar com a estratégia publicada pelo CDC, “The Advisory Committee on Immunization Practices’ Updated Interim Recommendation for Allocation of Covid-19 Vaccine — United States”, na MMWR de 22 de dezembro ou pela “Joint Committee on Vaccination and Immunisation: advice on priority groups for Covid-19 vaccination”, do Reino Unido, em 2 de dezembro 2020, para se perceber o que poderia e deveria ter sido o Plano em Portugal. Na forma, no racional, na descrição, na simplicidade e inteligibilidade, na precisão, na citação das fontes. Mas, uma coisa é certa, estes documentos, os dos USA e RU, são técnicos e, como tal, omissos no que ao plano de comunicação, i.e. propaganda, diz respeito. Sejamos justos, na matéria da comunicação, este ministério é ímpar.

10 Daqui resulta que haja demasiada opacidade nos critérios clínicos e na forma como são apresentados. Para começar, já todos percebemos que não chega haver 3 fases. Seria preciso elencar prioridades em cada uma delas, já que as vacinas não estão todas imediatamente disponíveis.  Qual o critério de ordenação seguido para vacinar profissionais de saúde? Porque se omitiram privados e INEM da planificação original? Eu arranjo razões e todas bem sólidas para não os ter, os profissionais dos privados, na 1ª linha da 1ª fase, mas porque não as apresentaram? Quanto ao INEM, não me ocorre quem possa ter mais envolvimento no tratamento direto de doentes do que quem anda nas ambulâncias e noutros meios de socorro e transporte de doentes, incluindo bombeiros. Quem, como e quando serão vacinadas as forças de segurança e de proteção civil? Olhemos para outras superficialidades de critérios na 1ª fase. Que grau de insuficiência cardíaca? Qual o nível na classificação NYHA? Doença coronária? Em que fase? Se fez um by pass há 10 anos e está bem, é prioritário? Na 1ª fase vacinam-se os doentes respiratórios sob ajuda ventilatória ou com suporte de oxigenoterapia. Tudo certo. Que tipo e nível de restrição respiratória para as DPOC na 2ª fase, de que estão ausentes?  Um asmático controlado com corticosteróides tópicos brônquicos diários, sem crises sob medicação, é de que fase? Ainda na 2ª fase, que grau de hipertensão arterial? Os obesos que são o grupo com maior risco de morte e aqueles que se deve evitar com mais empenho que cheguem à ventilação mecânica, não deveriam estar na 1ª fase? Já têm alguma ideia sobre a instrução de como proceder com imunossuprimidos, doentes com sida, cancro e imunodeficiências? As doenças malignas estão na 2ª fase. Aplica-se a doentes em tratamento ou em remissão e há quanto tempo? A doença renal crónica isolada, com taxa de filtração glomerolar > 60 ml/ min, é, no mínimo, muito discutível que seja prioritária em igualdade com obesos.  A multipatologia vale mais pontos? Que médicos vão decidir como deve ser priorizada a lista? Só os dos centros de saúde? Isto para já não falar dos ziguezagues com os mais idosos e das infelizes declarações do Presidente da República e Primeiro-Ministro a este propósito. Aqui, todos podiam e deviam ter feito melhor. Há espaço para correções.

11 Mas muito mais grave é a assunção de que a informação clínica está centralizada e acessível em todos os pontos do SNS. Não está! A plataforma designada por Registo de Saúde Eletrónico (RSE) não funciona para todos os pontos da rede pública e não permite a consulta de dados entre a maioria dos centros de saúde e hospitais. A RSE é excelente mas não chega a todos, nem da mesma forma. Mesmo entre hospitais há uns que ainda estão no “escuro”, inacessíveis. Não há interoperabilidade universal entre os registos. Não há um registo centralizado de diagnósticos e de graus de morbilidade. Não há!! Logo, a elaboração da lista de prioridades por critérios de patologia, por mais lógica que seja, vai ser um pesadelo. Teria sido mais fácil seguir coortes por grau de risco de exposição profissional e idades. Em Portugal, sei lá porquê, odeia-se a simplicidade…e a planificação à distância. Gostamos tanto de colo que até no regaço fazemos planos.

12 E que fazer aos doentes – utentes se preferirem – que não estão inscritos em centros de saúde, só vão a hospitais ou não usam a rede pública? Não se vacinam?

13 Note-se que toda a planificação, não só em Portugal, está baseada na disponibilidade de produção industrial de vacinas e até de marcas que ainda não estão aprovadas. Uma margem de incerteza que deve ser gerida com extremo cuidado. Não me parece avisado insistir outra vez na ideia de que haverá vacina para todos em 2021, sendo que vacinar toda a população não será imunologicamente obrigatório, embora desejável.

14 Sobre o miserável espetáculo da “senhora de vermelho” na assistência ao momento solene da vacinação do Dr. António Sarmento – Colega de Excelência -, já foi tudo dito. As palmas coroaram o espetáculo de uma picada na mouche. Foi importante ver profissionais de saúde a receberem a vacina, sem medo e sem caírem para o lado. Os “apêndices”, os que formalizaram o ato “sob o olhar atento”, eram dispensáveis. Para alguns dos meus Colegas filmados, com muita solidariedade fica a recomendação de alguma contenção nutricional nos meses vindouros. O que não obsta a que lhes reconheça a coragem de, em nome da saúde pública, terem exibido redondices que já não se viam desde “As Ninfas” de Renoir.

15 Está tudo excitadíssimo com os êxitos da Europa e da Comissão Europeia no que à compra e distribuição das vacinas Covid diz respeito. Onde está a admiração? A Dra. Ursula von der Leyen é médica, não é?