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A ”universalidade do acesso ao ensino digital” parece que ficou na gaveta, tal como os prometidos computadores e aparelhos de internet ficaram na loja. Por azar, a televisão gravou a promessa que ficou por cumprir, pelo que assistimos ao surgimento de um novo ditado popular: Com férias e bolos se enganam os tolos.

Mais uma vez, o Governo de António Costa falhou, dando continuidade aos sucessivos erros a que os Portugueses foram habituados no decorrer desta legislatura. Estou certo que passará apenas por mais um caso que irá marcar a agenda nos próximos dias e que, invariavelmente, vai acabar por ser esquecido como tantos outros.

Depois dos sucessivos erros na gestão da Saúde, onde se prefere assistir a mais mortes do que “dar as mãos” aos privados, dos erros do Ministério da Administração Interna, onde a resolução de um homicídio causado pelo SEF se bastou num botão de pânico e na mudança de sigla, e dos erros na Justiça, onde o caso do procurador europeu levou Portugal além-fronteiras, eis que chegamos à Educação. Passaram mais de 280 dias desde a promessa que nos foi feita, para Júlio Verne daria para dar três voltas e meia ao mundo, para Tiago Brandão Rodrigues não deu para preparar um ano lectivo e de quem é a culpa? Não, não é nem do PS, nem do ministro, nem, para meu espanto, de Pedro Passos Coelho (disclaimer de ironia). É dos privados que prepararam melhor o seu ano lectivo. Um acto condenável, como todos podemos concluir.

Colocando a ironia de parte, preocupa-me a falta de competência de quem dirige os destinos do nosso país. Relembro que a competência não está associada a qualquer tipo de ideologia, ou muito menos a uma cor partidária, mas está, ou deveria estar, intrinsecamente ligada ao exercício de cargos públicos.

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Esta é a grande verdade que todos tendem a esconder: a pandemia veio apenas colocar a olho nu as muitas deficiências do nosso sistema de educação.

O mais grave de tudo, é que para resolver esta trapalhada, foi decretada, à boa forma socialista, a proibição de se lecionarem aulas em formato digital nas escolas privadas, tudo encapotado sob um chavão de igualdade, escondendo todo o preconceito ideológico emanado por este governo socialista/comunista. Não fosse este um artigo escrito por alguém que está, efectivamente, preocupado com a aprendizagem dos nossos jovens, seria esta uma óptima deixa para explicar como funciona o socialismo: onde não se pretende acabar com os pobres mas sim com os ricos, tornando toda uma sociedade igualmente pobre e, neste caso em específico, combatendo as escolas que funcionam bem, podendo agora, assim, os Portugueses estar descansados, pois agora todas funcionam mal.

Este é um sentimento que guardo para mim há muito e que se tem evidenciado ano após ano. Existe neste momento em Portugal uma escola para ricos e outra escola para pobres, onde quem tem dinheiro tem acesso a um ensino de qualidade e quem não tem terá de se contentar com o que lhe sair na rifa. Por experiência pessoal, e tendo maioritariamente frequentado a escola pública, senti na pele esta diferenciação e sinto-me em condições de afirmar que, à semelhança da inteligência deste Governo, também o elevador social está avariado.

A grande causa desta avaria surge, em grande parte, pelo nivelamento por baixo de que o nosso sistema de educação é alvo. Poderia elencar muitas outras áreas que sofrem deste mesmo mal, mas, nos últimos anos, a educação tem vindo a destacar-se neste mesmo campo. Há uma gritante falta de brio e de ambição por parte de quem estabelece as metas de planeamento estratégico para o ensino. Estes factores são apenas atenuados pelos milhares de professores que, dia após dia, exercem com muito orgulho e zelo a sua profissão, “lavando assim as mãos” de quem nos governa, o que, num sentido mais literal, significa que atenuam as constantes gralhas de Tiago Brandão Rodrigues.

Porque não sou de críticas baratas, nem de textos que não apontem um caminho alternativo, a solução que apresento, e que acredito ser a melhor para resolver este problema estrutural na nossa sociedade, é um velho conhecido de quem nutre e perde algum tempo a estudar políticas de educação. Com o objetivo de combater a postura apática e conformada do ensino público, o cheque-ensino parece-me ser o caminho.

É certo que não é uma discussão nova, mas não percebo, efectivamente, a falta de vontade política em adoptar um sistema que dê aos alunos a verdadeira liberdade de escolha, podendo eles próprios escolher o tipo de ensino que mais os atrai e que seja melhor para potenciar as suas capacidades. Assim, retiram um maior proveito das suas aulas sem que os pais tenham de abrir os cordões à bolsa para pagar a educação dos filhos. As escolas, por sua vez, teriam de adaptar os seus currículos para atrair um maior número de alunos, havendo uma relação proporcional entre o número de alunos e o financiamento recebido. Bem sei que é um conceito que causa estranheza e algum grau de incómodo a muitos, mas a competitividade saudável teria como resultado um ensino de melhor qualidade e quem ficaria a ganhar seriam, certamente, os alunos.

Só com reformas deste calibre resolveremos o problema que nos assola há anos. A grande consequência da falta de visão estratégica do ministro, é de que teremos de continuar a resolver problemas em cima do joelho, colocando remendos atrás de remendos, fazendo mais promessas políticas do que trabalho.

Tiago Brandão Rodrigues é (mais) uma cara que transpira o desnorte do nosso Governo e, ao que parece, deverá estar às compras de última hora. Aquilo que muitos de nós podemos garantir, pegando nesta última analogia, é que acaba sempre por ser uma má decisão, pois acabamos sempre por comprar bugigangas a preço de ouro. Resta-nos esperar a resolução desta trapalhada e viver com a certeza de que, nestes próximos dias, os nossos jovens, ao invés de assistir às aulas por uma plataforma online vão, sim, ver as aulas por um canudo.