Deus é uma palavra difícil. Sempre foi e creio que sempre será, pois Deus é tudo menos evidente. Por isso mesmo, não me é nada difícil perceber a dificuldade dos que nem a conseguem ouvir. E, muito menos, proferir.

Curiosamente, o contemporâneo OMG parece facilitar a tarefa a muita gente. Evocado assim, por escrito e em inglês, apenas com três iniciais acompanhadas de coloridos emojis, nas redes sociais, dá mais jeito e a evocação serve tudo e todos. É útil para exprimir sustos, dificuldades ou perplexidades, para exclamar grandes surpresas e sublinhar profundos mistérios. Dá para a vida corrente e é usado por crentes e não crentes, numa escala planetária.

No cinema também ouvimos a expressão mil vezes repetida e aplicada a situações que vão das mais fantásticas fugas aos mais hediondos crimes, torturas e aflições, passando por momentos de paixão e instantes de exaltação.

Posso dar dois exemplos correntes onde a palavra Deus é usada sem hesitação: nos EUA, país altamente democrático, como sabemos, livre e respeitador de pessoas e atitudes, a nota de dólar continua a ter a inscrição “In God we trust”. Também a divisa inglesa, o lema do Reino Unido, permanece fiel a Deus, mantendo a expressão francesa original “Dieu et mon droit”.

Deus é uma palavra difícil, sim, mas está desde sempre no imaginário comum da Humanidade e assim permanecerá. Claro que a palavra ‘Deus’ também é um tropeço para todos, sem exceção, quando é usada para legitimar atos terroristas e matar inocentes, ou se em nome de Deus (ou a coberto do ministério de Deus) se cometem atrocidades e fazem vítimas usando e abusando de crianças, jovens e adultos.

Por ser realmente uma palavra equívoca e até bastante assustadora, ou implacável, para quem não O conhece e segue, recorro a exemplos concretos da vida real, mas também a autores, uns mais crentes, outros mais céticos, que nomeiam Deus sem complexos e falam d’Ele com extraordinária beleza e elevação.

Tomáš Halík, padre e filósofo checo clandestinamente ordenado em 1978, na então República Democrática da Alemanha (a ordenação foi mantida secreta até para a sua mãe), distinguido com o Prémio Templeton – 1,3 milhões de euros, um dos maiores prémios do mundo atribuídos a pessoas individuais! – foi o mesmo homem que arriscou ser preso por promover a liberdade religiosa e cultural depois de a União Soviética ter invadido a Checoslováquia, tendo-se tornado desde então um defensor do diálogo entre diferentes crenças e religiões. Autor de diversos livros, Halík conhece bem a dificuldade em falar de Deus.

“Para muitas pessoas que me rodeiam, as afirmações bíblicas acerca do amor (“Deus é amor”; “Ama o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração…”; “Deus amou tanto o mundo…”; “Amai os vossos inimigos”) soam a frases de uma língua desconhecida, incompreensível e, desde há muito, esquecida.(…) Há interrogações demasiado boas para serem estragadas com respostas. Há perguntas que devem continuar a ser uma janela aberta para a contemplação. (…) dentro de mim foi amadurecendo gradualmente a convicção de que Deus se aproxima de nós mais como uma pergunta do que como uma resposta.”

Relativamente a autores mais cépticos, começo por Marguerite Yourcenar, uma escritora que ninguém identifica com Deus e toda a vida buscou a verdade. Yourcenar deteve-se a escutar os rumores dos séculos e a perscrutar as vozes, os silêncios e os barulhos do mundo. Yourcenar sempre quis estar no mundo, estando ao mesmo tempo fora, ao lado, acima e atrás do mundo. Os seus personagens são cheios de exigências espirituais e ela própria pouco ou nada tem de frívolo, pois todas as suas fibras parecem tecidas de sensibilidade e humanidade, associadas a um sentimento elevado e porventura transcendente da escrita.

A religião ocupa muito pouco espaço na sua obra, mas Yourcenar assumiu publicamente as suas inquietações místicas.

Em Les Yeux Ouverts, escreveu: “J’appelle Dieu ce qui est à la fois au plus profond de nous-mêmes et au point le plus éloigné de nos faiblesses et nos erreurs

Disse ainda: “a minha educação religiosa parou cedo demais, mas felicito-me por tê-la tido, porque é uma via de acesso ao invisível, ou se preferirem, ao ‘interior’. As bases da minha cultura são religiosas, mas o meu público ignora isso”.

Yourcenar adota uma atitude muito original perante Deus: a divindade, para ela, não tem repertório, mas antes uma mística com exigência.

Clarice Lispector, outra autora que viveu a sua vida muito distante de Deus, escreveu: “Mesmo para os descrentes há o instante do desespero que é divino: a ausência de Deus é um ato de religião. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. (…) O Deus tem que vir a mim, já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. (…) Sou inquieta, áspera e desesperançada (…) preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais”.

No final do seu livro Uma Aprendizagem, Clarice escreveu: “embora não sendo humano, no entanto, Ele às vezes nos diviniza”.

Murakami fala de Deus como alguém sem forma, sem vestes brancas, sem barba comprida, sem escrituras nem preceitos, sem castigos nem recompensas, sem céu nem inferno, um Deus que está simplesmente presente, “God is simply there”. E também diz: “If you think God’s there, He is. If you don’t, He isn’t. And if that’s what God’s like, I wouldn’t worry about it.”

Tolentino Mendonça, que dispensa apresentações depois de ter sido indigitado pelo Papa como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, a mais antiga biblioteca do mundo, fala de Deus com amor e fervor. Tal como Halík, também ele passa a vida a construir pontes entre crentes e não crentes, céticos e duvidosos. E é ele que escreve:

“Esta vida que por vezes nos custa aceitar por inteiro ou entender. Esta vida ao mesmo tempo exaltante e a ameaçar derrocada, lugar de impasse e de renascimentos contínuos. Esta vida objetivada na nossa carne, mas tão secreta que nos escapa. Esta vida que é a radical pergunta para a qual não encontramos resposta. Esta vida assim experimentada é o santuário de Deus.

E não resisto a um poema de Sophia:

Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas

A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento

Por tudo isto, que outros dizem infinitamente melhor do que eu poderia dizer, encanta-me que toda e qualquer pessoa, em público ou em privado, possa despedir-se dos outros com liberdade com um “até amanhã se Deus quiser”. Se isso for o que de melhor tem para lhes oferecer, quem sou eu para condenar?