Autárquicas 2017

Autárquicas: o impacto local das estratégias nacionais

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Existe um efeito nacional no voto local, que se traduz num prémio (positivo ou negativo) em relação à maioria dos candidatos. É esta grelha de análise que permite ler e aprender com os seus resultados

O ato eleitoral correu sem sobressaltos, o que nem sempre aconteceu, e foi uma prova da vitalidade da democracia. Estão de parabéns todos os que foram eleitos e todas as que se bateram pelas suas ideias mesmo não tendo conseguido ter sucesso. Aquilo que devemos esperar é sentido de responsabilidade e dedicação à causa pública dos que agora assumem funções.

As eleições autárquicas têm uma racionalidade e lógica própria distinta das legislativas. Conta o(a) candidato(a), o partido, o projeto, a campanha, etc. E em relação a tudo isto, que diferencia as candidaturas, existe o que posso chamar de efeito nacional no voto local, que se traduz num prémio (positivo ou negativo) em relação à maioria dos candidatos. É esta grelha de análise que me permite ler os resultados onde todos têm algo a aprender.

O PS. Aparentemente, o Partido Socialista, grande ganhador das eleições, pouco teria a aprender dado o seu relativo sucesso eleitoral que obviamente beneficiou de um prémio positivo associado à governação. É bom não esquecer que o sucesso da governação PS, está ancorado numa nova forma de fazer política que o PS inovou em 2015, e que passou pela elaboração de uma estratégia económica e orçamental sólida e bem fundamentada tecnicamente. Nunca antes de umas eleições houve tanta análise técnica, e se isso não foi determinante para o resultado de 2015, foi, e é, essencial para a coerência da governação 2015-17. O PS não pode ficar assim embalado com este resultado para 2019. Para além do difícil exercício da governação, terá de o preparar de forma semelhante ao que fez em 2015, quer em abertura a pessoas qualificadas da sociedade civil quer na reflexão programática e formação de quadros.

O CDS. O CDS, teve também um prémio positivo nestas eleições que explicam parte do seu relativo sucesso. Teve o mesmo choque inicial com a formação do governo PS apoiado pelas esquerdas que o PSD, mas ultrapassou esse trauma mais cedo. Logo no OE2016, em que PSD teimou em não apresentar propostas, o CDS foi a jogo com propostas. A mensagem que o CDS quis passar foi o de que queria dar os seus contributos, mesmo discordando da fórmula governativa. Havendo uma baixa opinião dos políticos, nomeadamente dos que apenas laboram no “bota abaixo” dos restantes, não enveredar por essa retórica, obviamente que agrada ao eleitorado.

O PSD. O tabu do momento é o que fará Passos Coelho, nomeadamente quanto à recandidatura à liderança do partido. Esse não é, a nosso ver, o principal problema do PSD. A questão essencial é de estratégia política e de pessoas para a a implementar. O PSD, com a troika, radicalizou-se à direita, e deixou o PS ocupar o espaço do centro-esquerda e do centro. Depois da troika, passou do “vem aí o diabo” ou “eles não têm legitimidade para governar” (um óbvio absurdo em democracia com uma maioria parlamentar à esquerda), para “tudo teria sido melhor connosco”, um outro absurdo pois é difícil argumentar com hipotéticos contra-factuais.

O PCP e o BE. O PCP era e é uma força eleitoral autárquica muito superior (em votos e mandatos) ao BE. Em relação a 2013 o PCP perde cerca de 60.000 votos e o BE ganha cerca de 50.000. Não me parece que nenhum partido tenha sido penalizado pela governação. Porém, das duas uma, ou o bloco está a capitalizar mais que o PCP, ou soube escolher melhores candidato(a)s. Em legislativas em 2019 capitalizarão pelo não “voto útil” no PS se mantiverem os acordos que assinaram como, estou em crer, que acontecerá. Todos estarão recordados do preço político que o Bloco de Esquerda pagou por não se querer sentar à mesa com o FMI. O problema de longo prazo de PCP e BE é também de natureza programática. PCP e Bloco têm legitimamente um programa que defende a saída do euro e não concordam com as regras europeias, nomeadamente a necessidade de maior disciplina orçamental. Não capitalizam assim com sucessos nesta área. Há, porém, várias ideias, que deveriam ser melhor exploradas, como a redução do peso da dívida, e uma melhor gestão da mesma, cuja contribuição para uma solução pode ser capitalizada por BE e PCP caso haja avanços nesta área.

Dinossauros – a regra foi que não ganharam (e isto tanto se aplica a Valentim Loureiro em Gondomar, Narciso Miranda em Matosinhos ou João Rocha de Beja, antes Serpa). Isaltino, a exceção em Oeiras, fez muita e reconhecida obra em Oeiras, apesar de ter tido um comportamento ética e criminalmente condenável. Aparentemente, os eleitores qualificados de Oeiras dão mais importância ao primeiro factor do que ao segundo.

Pequenos partidos – dos pequenos partidos não reza grande história. A excepção parece-me ser o PAN que à sua escala, pequena, viu aumentar substancialmente a sua votação relativamente a 2013 (mais que triplicou) e representação autárquica, reflexo em grande medida do seu desempenho parlamentar. Não esquecer que a UDP em 1976 elegeu apenas um deputado e fez o seu caminho até integrar o atual BE.

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