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O não aparecimento em público há mais de uma semana do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e a falta de informação sobre o seu estado de saúde estão a provocar uma onda de boatos no país e a fazer renascer uma “ciência” muito popular no tempo da guerra fria: a Kremlinologia.

Há muito que se fala de doenças do dirigente russo, mas os serviços de imprensa do Kremlin apressam-se a desmentir essas informações e, numa das vezes em que um jornalista lhe conseguiu perguntar directamente sobre o seu estado de saúde, ele respondeu com ironia: “Podeis esperar sentados!”.

Porém, o adiamento, a pedido do Kremlin, da cimeira da União Económica Eurasiática em Astana, marcada para 12 e 13 de Março, fizeram aumentar as apreensões quanto à saúde de Putin, tanto mais que a agência Reuters, citando uma fonte no Cazaquistão, noticiou que o adiamento se devia ao estado de saúde de Putin.

Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, veio tentar acalmar os ânimos ao declarar que o Presidente russo se encontra de boa saúde e continua a cumprir as suas funções, frisando que ele, ao cumprimentar alguém, “lhe pode partir o braço” e que “trabalha com documentos”. Estas afirmações fizeram lembrar as palavras de Serguei Iastrejembsski, porta-voz de Boris Ieltsin, quando este já se encontrava seriamente doente a ser preparado para uma intervenção cirúrgica ao coração.

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A estes rumores juntaram-se as conversas sobre as lutas nos corredores do Kremlin. Tudo começou quando Konstantin Remtchukov, director do diário Nezavissimaya Gazeta, noticiou no Twitter a demissão de Igor Setchin do cargo de presidente da Roszneft, a maior petrolífera russa. Se isso se concretizasse, significaria um enfraquecimento substancial dos “siloviki” (ex- e actuais agentes dos serviços secretos russos que ocupam posições no aparelho de Estado) no Kremlin.

Além disso, os exilados políticos Andrei Ilarionov, antigo assessor económico de Putin, e Mikhail Khodorkovski, ex-patrão da petrolífera russa, preveem para breve a queda de Putin devido às guerras no Kremlin, apontando como uma das razões o facto de os actuais dirigentes russos não terem soluções para os graves problemas económicos e sociais que o país enfrenta.

Os comentários contraditórios e confusos sobre a vida e a saúde de Vladimir Putin fizeram renascer uma “ciência” muito popular durante a guerra fria: a Kremlinologia, que consistia em estudar os sinais lançados, consciente ou inconscientemente, pelos dirigentes comunistas soviéticos ou em saber descobrir novidades nas entrelinhas dos artigos do jornal oficial Pravda. Era preciso estar atento ao rosto e gestos dos secretários-gerais do Partido Comunista da União Soviética para ver, como diziam os soviéticos, se eles ainda estavam vivos ou já só funcionavam a pilhas. Além disso, quando se realizavam paradas militares ou funerais de altos funcionários, era importante ver quem estava ao lado de quem ou quem ia à frente ou atrás a acompanhar o caixão.

Quanto a Putin, ele poderá estar doente como qualquer outra pessoa, tanto mais que se dedica a desportos e durante os quais se diz que já provocou danos na coluna. Porém, esperemos até 16 de Março para tirarmos “a prova dos nove”. Nesse dia, começam os festejos dedicados ao 1º aniversário da anexação da Crimeia pelas tropas russas. Está previsto que Vladimir Putin, enquanto Presidente da Rússia e mentor dessa operação militar, participe em várias cerimónias públicas.

Aí, algum jornalista ou popular poderá ter a oportunidade de lhe perguntar: “Como está a sua saúde?”  e ouvir como resposta: “podeis esperar sentados!”.

Mas o mais provável é que tal não aconteça e Putin apareça como os russos o gostam de ver: como o “reunificador do mundo russo”.