A política comercial e de investimento estrangeiro é há várias décadas a face visível do poder económico de um país ou região. No entanto, até muito recentemente havia uma área da política económica que parecia mais ou menos intocável, que nem a emergência do euro ou a crescente importância económica da China conseguiu abalar: a predominância do dólar nas relações internacionais.

A digitalização crescente do setor financeiro e as moedas digitais poderão transformar este paradigma. O dólar é a principal moeda internacional, que serve para a esmagadora maioria das transações comerciais e financeiras internacionais, e como maior moeda de reserva. Segundo dados do FMI, mais de 60% das reservas internacionais em 2020 eram em dólares, seguidas do euro, mas com apenas 20% do total.

Ser moeda de referência internacional tem três vantagens importantes para a economia nacional: maior liquidez, menores custos de empréstimo no exterior, o que explica os reduzidos custos da dívida pública dos Estados Unidos, e capacidade de influenciar a política externa, por exemplo através da política de sanções. Quando associada a uma política de investimentos, a moeda torna-se um poderoso instrumento de influência no exterior. Foi esta combinação, juntamente com o crescimento económico significativo e um grande dinamismo populacional, que explica a grande capacidade de influência económica dos Estados Unidos desde a segunda guerra mundial.

Agora, as Moedas Digitais dos Bancos Centrais (MDBC) são a inovação que mais facilmente pode desestabilizar a posição relativa das atuais moedas nas transações internacionais, nos mercados financeiros e até na política internacional.

As Moedas Digitais dos Bancos Centrais apresentam duas vantagens sobre as obrigações do Tesouro: não dependem da capacidade dos Estados de cobrar impostos para pagar dívida e são um meio de troca (ver aqui por exemplo). Se a moeda digital for desenhada de forma a permitir o acesso de estrangeiros, então terá dois importantes efeitos internacionais. Em primeiro lugar, competirá no mercado com outros ativos seguros, por exemplo obrigações. No limite, entre dois países de risco igual, os investidores podem preferir a moeda digital de um em detrimento da obrigação do outro. Em segundo lugar, facilitará a política comercial e de investimentos do Estado, reforçando a sua capacidade de influência. É fácil imaginar que o programa Belt and Road da China, com investimentos em todo o Sul Asiático, no Médio Oriente, África e até Europa, poderá ser reforçado e alargado com uma moeda digital do Banco da China. Por sinal, a China, a par da Suécia, são até agora os únicos países do mundo que têm projetos-piloto nesta área.

Os desafios das Moedas Digitais dos Bancos Centrais para as moedas tradicionais são grandes e podem implicar transformações importantes. No entanto, a confiança numa moeda depende essencialmente da confiança nas instituições que a emitem. Assim, apesar do avanço da China nesta corrida digital, a resiliência das instituições dos países ocidentais continuará a ser um fator diferenciador para os investidores, o que será favorável ao dólar.

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