No dia 13 de novembro tornou-se do conhecimento público a decisão que era esperada. Bernardo Silva foi castigado pela Federação Inglesa de Futebol com um jogo de castigo, uma multa de £50,000 e a obrigatoriedade de frequentar um “curso educacional”. A razão é por todos conhecida: fez uma brincadeira com um amigo numa rede social. Dito desta forma parece ridículo, mas o acontecimento deve ser enquadrado no momento atual de luta contra o racismo. Não interessa que Bernardo Silva o tenha feito sem qualquer maldade ou intenção de ser racista, nem que o amigo alvo da brincadeira, Benjamin Mendy, não se tenha ofendido. De acordo com a decisão da Federação Inglesa, ao fazer referência à raça, cor ou origem étnica do amigo, Bernardo Silva teve um comportamento insultuoso e/ou impróprio – o mesmo é dizer, violou as regras do jogo atualmente em vigor.

Essas regras, que delimitam muito do que pode ser dito na esfera pública dos nossos dias, resultam de uma intenção meritória: o objetivo seria expurgar do espaço público referências e termos racistas, ofensivos e discriminatórios ou que denotem violência normalizada – e, com isso, tornar a sociedade mais inclusiva. Trata-se, então, de uma parole de resistência e libertação, que contesta uma linguagem resultante de estruturas de poder que se teriam sedimentado ao longo de séculos. No fundo, se pretendemos uma sociedade mais justa e inclusiva, teremos de adotar uma linguagem politicamente correta.

O problema é que, quando analisamos a dinâmica dos discursos políticos, encontramos um padrão: as paroles libertárias bem-sucedidas acabam por se transformar, inevitavelmente, em langues opressoras. E foi o que aconteceu neste caso: tendo surgido como movimento de libertação, o Political Correctness passou a condicionar de modo inaceitável o que é aceitável dizer-se na esfera pública. A consequência política é evidente: abre-se espaço a figuras como Donald Trump, que recusam esse cuidado linguístico, e a movimentos extremistas, que se debruçam sobre assuntos que os partidos moderados não discutem por serem politicamente incorretos.

Mas é no domínio académico que as consequências se têm revelado mais gravosas, com a proliferação de safe spaces (espaços que se pretendem livres de preconceitos, críticas e ideias ou discussões potencialmente ameaçadoras), ações de deplatforming (que consistem em desconvidar um orador por razões de potencial dano ou ofensa) e trigger warnings (avisos que devem anteceder certas referências potencialmente traumatizantes). O resultado foi o surgimento de uma geração snowflake (constituída por frágeis flocos de neve), incapaz de lidar com os desconfortos e dificuldades que a vida sempre implica, como Jonathan Haidt chama a atenção. Mas, sobretudo, incapaz de lidar com aquilo que deve constituir o cerne de uma sociedade democrática: a pluralidade de visões sobre o bem comum e a discussão e troca de argumentos que resultam dessa pluralidade.

Daqui decorre uma dinâmica perversa que se autoalimenta. Por um lado, o politicamente correto assenta numa lógica de puritanismo moral, acusação e ódio, dinamizada por pessoas que, no mundo anglo-americano, se designam como woke (os acordados ou iluminados). Reclamando um acesso privilegiado à verdade, tornam-se incapazes de compreender que o mundo real está cheio de ambiguidades e é constituído por pessoas tão humanas como elas, nas virtudes e nos defeitos, como Barack Obama notou recentemente em reação à cancel culture. Por outro lado, essa reivindicação de superioridade gera uma cultura de vitimização que assenta na ânsia pela salvação do outro. E o problema é que, quando concentramos os nossos esforços na salvação do outro, estamos a colocarmo-nos numa posição de autoridade moral que diminui aquele que queremos salvar. Ao invés de respeitar o outro como igual, assumimos uma atitude paternalista que o menoriza.

Parece ser este o aspeto central da situação protagonizada pelos vigilantes da Night’s Watch digital que denunciaram Bernardo Silva. De nada adiantou ao jogador afirmar que se tratava de uma brincadeira (para lá do muro, nenhum humor é aceitável); nem que Mendy não ficou ofendido (para lá do muro, isso é irrelevante); nem sequer fazer prova de que não é racista (para lá do muro, o castigo não exige crime). Em sentido contrário, a defesa de Bernardo deveria ter consistido no elogio a uma cultura de emancipação. Deveria ter afirmado que, ao não ignorar as características biológicas do amigo, está a demonstrar um respeito sincero pela sua pessoa; e que, ao recusar as regras do jogo, está a recusar uma atitude de menorização do outro. Afinal, tratar os amigos negros (ou do sexo feminino, ou homossexuais, ou obesos, a lista não termina) com correção política equivale a considerá-los incapacitados, inferiores ou crianças incapazes de lidar com piadas inofensivas ou outras turbulências da vida em sociedade – tendo sido esse, aliás, o modo como muitas sociedades trataram os negros e as mulheres durante séculos.

Face a uma parole de resistência que se tornou opressora, esta terá de ser a nova parole revolucionária: reclamar a herança de uma tradição intelectual e política que, na senda de pessoas como Immanuel Kant, John Stuart Mill, Frederick Douglas ou Emmeline Pankhurst, entendem o espírito democrático como a capacidade de reconhecer a legitimidade de pontos de vista distintos do seu e de discuti-los sem considerar que o discurso entrave a ação. Mas, acima de tudo, reclamar a herança de um espírito democrático que emancipa e empodera os indivíduos, ao invés de inferiorizá-los.