Fatigam-nos a solicitude, o comportamento forjado e a palavra à medida da conveniência. Desconfiamos de filantropos, de sorrisos plásticos… políticos, das palmadinhas nas costas e dos apertos de mão moles do protocolo. Estamos todos cansados de conversa fiada, piadas fáceis, inverdades e outros eufemismos palermas que encobrem mal a falta de virtude.

Não se trata de exaltar a boçalidade, a grosseria das palavras, mas de trazer à consciência a motivação das atitudes. Fugindo à tendência de recorrer a Freud e outros vultos da psicologia para fundamentar a acção humana, ocorre-me antes um conceito sábio e simples da economia política, como simples é a verdadeira sabedoria — a “Mão Invisível” de Adam Smith em The Wealth of Nations (1776) a propósito da economia de mercado.

Defendia o autor a livre concorrência do Laisser faire, com a presença de uma benévola mão invisível, em que o individuo na procura do próprio rendimento, colabora, forçosamente, no interesse comum e na eficiência económica.

Claro está que o rendimento individual, no plano teórico, não inclui meios ilícitos normalizados na escada social, do larápio de automóveis a governantes, cujos desvios parecem inversamente penalizados. O “Esteves” que roubou meia dúzia de carteiras para pôr dentes e adquirir direito a comer está preso, e bem. O “Dr. Fidalgo” doutorado em malabarismos financeiros que desembocam na sua conta pessoal, continua presidente do organismo subtraído. Enquanto existirem certos réus e certas vírgulas, infindáveis as lacunas processuais e muitas as boas pessoas. In dúbio pro reo.

A metáfora do referido clássico da economia sugere-me atentar sobre os fundamentos da acção das boas pessoas de rótulo, que carecem talvez de selo de qualidade, pois, não raras vezes, as bondosas atitudes visam ganhos secundários invisíveis. São hábitos aprendidos, reflexos condicionados observados por Palov nos seus cães que salivavam por comida ao toque da sineta. Também entre nós, basta a figura do chefe como estímulo, e logo se desencadeia a “parada nupcial”, um sem-fim de acenos vistosos, não para o acasalamento literal, mas igualmente para sedução do boss com vista à promoção.

A “mão invisível” torna-se cristalina e de sentido invertido, nos desempenhos folclóricos, nas práticas de ajuda compulsiva, até a quem não quer ser ajudado. Cidadãos exemplares, excelentes pessoas, à espera do retorno da boa obra para colmatar a necessidade de poder e reconhecimento. Outras naturais motivações comparecem, entre elas, a procura de conforto económico, fuga à solidão, satisfação sexual, e claro, a alimentação da velha vaidade.

Boas pessoas apanham o lixo dos outros nas praias a bem do planeta, aderem a missões de combate à miséria em África, trabalham no banco alimentar contra a fome e distribuem refeições aos pobres. Bem hajam. Sincero agradecimento de todos nós. Mas, atentem também na própria vida, não vale aderir a todas as causas sem aderir à sua própria causa. Não vale o voluntariado para aplacar guerras e misérias alheias e esquecer as próprias, com isso, abandonar filhos e pais, para essencialmente, ficar bem na selfie.

Saiba, pois, quem ainda não percebeu, que a natureza do homem é perversa, capaz das maiores atrocidades quando beliscada a vaidade, ameaçado o seu Ego e recursos. Tudo fará para se suprir, incluindo ser boa pessoa. A bondade não precisa de palco nem aplauso, talvez seja decisão séria acessível a poucos. Vale, porém, o ganho de quantos são ajudados, beneficiários da “mão invisível” neste corso altruísta, ainda que sejam meras peças do xadrez social em que todos querem fazer “xeque-mate”.

Talvez não sejam necessárias boas pessoas. Precisamos sim, de educadores que nos ensinem a aprender todos os dias a acção ética — a arte de fazer bem por convicção, mesmo que ninguém esteja a ver.

Cheia de convívio com boas e simpáticas pessoas, agradeço ao mal-humorado do padeiro que hoje, e todos os dias, se levanta às 4 horas da manhã para ganhar a vida e cozer o pão que como ao pequeno almoço. É uma Boa Pessoa…