Agora, andamos pela rua de máscara. Não se trata de um adereço de carnaval ou de qualquer festa temática. Infelizmente, não as estamos a usar como sinónimo de euforia. Antes pelo contrário, temos de as usar. As máscaras usadas pelos técnicos de saúde num contexto de cuidados assépticos saíram para o uso quotidiano como meio de proteção contra eventuais contágios. Se nas primeiras semanas as estranhávamos, já nos vamos habituando a elas, acessório obrigatório e continuamente a uso.

São uma trapalhada, especialmente para quem usa óculos que embaciam, requerem cuidados especiais no tirar e pôr, fazem calor e tapam-nos metade do rosto e o sorriso. Delegaram nos olhos, espelhos da alma, a função mais relevante na comunicação fora de casa. Hoje, na rua, são as interacções oculares que traduzem estados de simpatia, contentamento, agradecimento, tristeza, medo ou zanga. Os olhos rasgam-se quando sorriem, abrem-se mais com o medo ou o espanto, cerram-se com a tristeza. Os olhos são o nosso novo instrumento de relação em público.

A vida social implica, por vezes, usarmos algumas máscaras como forma de nos adaptarmos a um coletivo. O significado de uma máscara associa-se à representação de um papel a desempenhar perante os outros; pensemos, por exemplo, na nossa atuação em contexto de trabalho, adaptada, condicionada por ele. Na atualidade, circular com uma máscara manifesta que assumimos o papel de um cidadão responsável. Logo, o seu uso provoca um efeito de alívio nos outros com quem nos cruzamos, que se reconhecem no espelho deles e no nosso, todos cautelosa e devidamente mascarados.

Não é que o recurso a máscaras de proteção, como a outras capas sociais, seja sinónimo de falsidade, mas elas não deixam de ser acessórios que cobrem algo. E se, no mundo da fantasia, até alimentam deambulações e confabulações, na realidade atual dão uma visão parcial de nós mesmos, o que aumenta o nosso desconforto em usá-las (a não ser pelo sentimento de proteção operante no quotidiano atual). As máscaras escondem a subjetividade de cada um, que se revela ao chegarmos a casa, junto daqueles perante quem nos apresentamos e somos inteiros, sem máscara. Bom é quando nos mostramos nesse espaço de intimidade, onde a nossa identidade se pode revelar por completo. Onde nos sentimos reconhecidos. Por detrás das máscaras, está  a pessoa verdadeira, tal como por detrás do estado manifesto dos diálogos conscientes estão outras profundidades e semânticas profundas ligadas ao inconsciente. Usamos hoje no rosto, estes objetos paradoxos, que velam e desvelam a nossa pessoa e nos deixam a pensar e a olhar o mundo de uma outra forma.

anaeduardoribeiro@sapo.pt