Há uns dias soube desta imaginativa campanha que visa convencer os indignados do mundo a boicotar os produtos alemães. Com hashtag no twitter e tudo, como toda a campanha respeitável tem por estes dias.

Tenho a informar que fiquei agradavelmente surpreendida. Também sou dessas pessoas que se recusa a gastar dinheiro no que ofende as minhas convicções. Recuso-me a dar dinheiro a propaganda socialista travestida de jornalismo, por exemplo. Só depois de tortura digna da Gestapo ponderaria gastar o meu dinheiro com o tratado francês de José Sócrates (no que, de resto, estou acompanhada de todos os portugueses, que mostraram grande maturidade literária ao fingir que a magna obra não existia). Ou, já que penso nisso, com as recentes biografias de Passos Coelho e António Costa. Sabendo a quantidade de abortos que a senhora fez, nem por 50€ compraria um quadro de Paula Rego. E por aí fora.

Como me identifico com o espírito da campanha, decidi caridosamente ajudar. Desde logo porque notei que na hashtag tuiteira, que pretendia remeter a Alemanha à pobreza mais cubana pelo boicote mundial das pessoas decentes aos seus produtos, escasseavam afinal os produtos alemães que se deviam boicotar. O mais concreto que por lá vi foi ‘No more German porn #boycottgermany’.

Fiquei com medo que, afinal, a campanha se reduza a um indignado – com banho por tomar há uma semana, barba à moda das zonas tribais do Paquistão, a mesma t-shirt preta justa de marca Boss Orange (tss, tss, alemã) vestida há quatro dias e quatro noites, a mandar um tuite anti-essa-cáfila-germânico-financeira enquanto sentado no banco aquecido do seu Volkswagen. Por isso decidi intervir, que é sempre bom ajudar pessoas a serem algo mais que revolucionários de smartphone. Aqui vão, portanto, vários produtos germânicos a boicotar.

Como estamos já em tempo de férias, começo pelos ensinamentos sobre viagens. O jovem indignado queria ir fazer backpacking para a Grécia, como sinal de apoio a esse governo progressista revolucionário do Syriza, que está apenas a contemporizar com o capitalismo para lhe dar o golpe de misericórdia tornando-se um estado fantoche de Moscovo? Pois mantenha-se afastado das ruínas de Olímpia, jovem indignado, que o arqueólogo alemão Richard Bormann fez parte da equipa que as descobriu. E andou a ler a Oresteia e planeava uma peregrinação pelos locais da Idade do Bronze grega? Risque lá Orestes, Agamémnon e Clitmnestra, que as escavações de Micenas são outro produto alemão, de um senhor chamado Heinrich Schliemann. É melhor ir só apanhar sol para as ilhas e, para se imaginar nas ruínas do Peloponeso, fumar uns alucinogénios.

Quer ficar pela Europa e já viu uns festivais de cinema americano que não pode perder? Pense bem no que faz, que Ernst Lubitsch nasceu na infame terra de Herr Schauble. Filmes adoráveis como The Shop Around the Corner são, portanto, lixo tóxico alemão; veja antes a sonsice do remake que há uns anos se fez com Meg Ryan e Tom Hanks. E não preciso de acrescentar mais nada sobre, por exemplo, Marlene Dietrich, pois não?

É melómano e no verão procura concertos românticos ao fim da tarde – essa hora dos mágicos cansaços, como dizia Florbela Espanca, que não era alemã e por isso pode ser citada – em anfiteatros ao ar livre? Lamento, mas este ano vai ter de se dedicar à ornitologia. Wagner está definitivamente cortado do ouvido de qualquer pessoa decente, porque, como diz Woody Allen dá-nos vontade de invadir a Polónia. Mas ainda há Bach, Beethoven, Schumann, e um quilométrico etc., tudo pessoas que criaram música-barra-produto alemão boicotável. E por lembrar Florbela Espanca: já foi por no ecoponto, para reciclar, as obras de Goethe? O que espera, seu indignado ocioso?

Mas, em boa verdade, reconheço: há produtos alemães que devemos boicotar. Eu boicoto sempre o joelho de porco, por exemplo, e repudio qualquer cerveja alemã (e não alemã). As sandálias Birkenstock (vivo convencida) são produto do demo. E, prepare-se caro leitor, ainda veio pior da Alemanha (e extremamente boicotável): as ideias dos senhores Karl Marx e Friedrich Engels.

Curiosamente, o que os indignados não podem boicotar – por não ser criação alemã – é o euro. Por estes dias de histeria indignada, vale a pena recordar que o euro nasceu para que os restantes países da UE conseguissem condicionar de alguma forma a política monetária alemã e as taxas de juro do banco central alemão – que com o marco não controlavam de todo. Eu sei que algumas cabeças e a lógica são mutuamente exclusivas, mas admita-se: o euro é uma concessão de poder da Alemanha.

De resto, com a última proposta de Hollande – de um pequeno grupo de países que teriam governo comum e acabariam efetivamente a tomar decisões para toda a zona euro – percebeu-se a favor de quem o euro desequilibra os jogos de poder na Europa.

Se os deuses do Olimpo me protegerem, a ideia [deixo aqui espaço para qualificativo de vernáculo forte à escolha do leitor] de Hollande não será implementada. Para mim seria uma trabalheira: lá teria eu de boicotar os perfumes e os vernizes franceses. E como viveria sem queijo roquefort?