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Brasil: a eleição entre o diabo que conhecemos e o diabo que não conhecemos /premium

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Os dois candidatos à frente das intenções de voto são também os que têm a maior taxa de rejeição. É muito provável que acabe por ganhar o que for menos detestado por dezenas de milhões de brasileiros.

Os dois candidatos com as melhores sondagens no Brasil estão na prisão (Lula) e no hospital (Bolsonaro). O primeiro condenado por corrupção. O segundo vítima de um ataque com uma faca, numa campanha marcada pelo discurso do ódio e da violência, em grande medida promovido por Bolsonaro. Eis o estado da política brasileira.

Além do clima de grande radicalização, as eleições no Brasil são as mais imprevisíveis desde o regresso da democracia ao país na década de 1980. As campanhas dos principais candidatos estão convencidas de que Bolsonaro estará na segunda volta. Mas ninguém sabe contra quem. Só se sabe quo o adversário será um de quatro candidatos (no total de cerca de uma dúzia de candidatos): da esquerda para a direita, Fernando Haddad (candidato do PT em substituição de Lula), Ciro Gomes, Marina Silva e Geraldo Alckmin. Neste momento, estão todos próximos uns dos outros.

A leitura dominante da eleição apresenta-a em termos tradicionais de direita contra a esquerda. Para os defensores dessa tese, Bolsonaro ocupará o lugar da direita na segunda volta. Assim, será muito provável que o outro candidato no segundo turno venha das esquerdas, Haddad, Ciro Gomes ou Marina Silva. Se a transferência de votos de Lula para o candidato do PT funcionar, Haddad estará na segunda volta contra Bolsonaro.

Mas há outra leitura possível, ainda que minoritária entre os analistas. Esta será uma eleição diferente de qualquer outra, opondo o candidato populista e anti-sistema contra um candidato do sistema. De acordo com esta tese, Bolsonaro estaria igualmente seguro na segunda volta, mas Alckmin, o candidato do PSDB, também teria hipóteses de passar à segunda volta, o que dificilmente acontecerá se a lógica direita contra a esquerda prevalecer.

Também é difícil prever o resultado da segunda volta. A maioria dos analistas brasileiros considerava até ao atentado contra Bolsonaro que todos o derrotariam, talvez com a excepção de Haddad. Num cenário Bolsonaro contra o candidato do PT, muitos acreditam que o candidato de extrema direita poderá ganhar. No entanto, depois do atentado é ainda mais difícil prever o resultado final das eleições. É demasiado cedo para perceber o impacto do ataque contra Bolsonaro na campanha da segunda volta.

Regressando às duas leituras das eleições, há um ponto interessante a referir. Se a lógica do confronto entre as esquerdas e as direitas prevalecer, Haddad é o candidato com mais hipóteses de enfrentar Bolsonaro no segundo turno. Mas, devido ao cansaço da maioria dos brasileiros com os anos PT, é igualmente o cenário onde Bolsonaro tem mais possibilidades de ser eleito. Se pelo contrário, for uma eleição entre populistas e candidatos do sistema, então Alckmin ou mesmo Marina Silva poderão chegar à segunda volta. Nesse caso, seria muito difícil Bolsonaro chegar ao Planalto.

O PT, porém, está a fazer tudo para transformar as eleições numa luta entre a esquerda e a direita. É a único cenário onde pode ganhar. Mas também pode acabar por ajudar Bolsonaro a ser eleito. É esta a ironia trágica da política brasileira. Os dois candidatos na frente das intenções de voto são igualmente os que recebem a maior taxa de rejeição. É muito provável que acabe por ganhar o que for menos rejeitado, mesmo que seja detestado por dezenas de milhões de brasileiros.

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