O Carnaval no Brasil, e sua máscara de uma alegria social natural, chegará oficialmente ao fim, na fatídica quarta-feira de cinzas. No entanto, até a semana seguinte, o povo brasileiro ainda brinca e se distrai. Uma agenda badalada de festas de rua, bailes e desfiles de blocos temáticos e escolas de samba vitoriosas do Carnaval ainda se prolonga, a fim de “alegrar” toda a gente, por diversas cidades do litoral e do interior deste imenso país.

No Brasil, há carnaval para todos os estilos, gostos, bolsos e interesses. Há aquele magnífico espetáculo para o turista ver, com o brilho e a exuberância das alegorias e enredos do desfile na Sapucaí, no Rio de Janeiro (o carnaval brasileiro mais visto pelo mundo inteiro, pela televisão, e que dá até hoje a principal visão sobre o carnaval nacional). Há também o carnaval de protesto, de cunho social e político, que felizmente resiste e que neste ano mostrou amplamente a sua sátira ao governo Bolsonaro.

Perante os enormes desafios que se advinham com o novo governo e seus ministérios difusos, com um congresso incógnita e questionável, as ruas dos bairros tradicionais do Carnaval se encheram de um clamor social para maior sobriedade e alerta dos cidadãos. Em blocos temáticos que animaram bairros de Recife, Olinda e São Paulo, milhares de cidadãos de diferentes classes sociais mostraram fantasias criativas e refrões de protesto às ações e opiniões do atual governo. Além disso, houve a crítica, sempre mais social do que política, feita pelos enredos das escolas de samba do tradicional desfile da Sapucaí, enredos que, em geral, nunca chamam mais atenção do que a performance física do espetáculo na avenida.

Na maior parte do país, muito se resume à despretensão e diversão, como uma espécie de catarse social tão necessária, ou apenas como um feriado prolongado, conveniente para se divertir ou relaxar ao lado da família. É o “tempo de alegria”, de “se estar numa boa”, como se diz nos inúmeros cantos do Brasil, ou o momento de “extravasar emoções”. No caso particular da complexidade social que vive agora no país, o Carnaval é sim um palco plural e livre de expressões, mas que, ao final, sabemos tanto, torna tudo uma crítica esvaziada, que em pouco ou nada afetará a vida dos brasileiros no restante do ano.

Nesse interim, aquela frase tão popular que diz “A vida no Brasil só começa depois do Carnaval” bem poderia ser definida como uma falácia, quando pensamos em tanto que já aconteceu desde o primeiro dia deste ano, mas que afinal levou-nos à nada e a lugar nenhum. Zero de avanços em quaisquer áreas. Um país parado ou paralisado, sem rumo definido e com fracassos à vista.

Agora, quando as infinitas luzes da festa carnavalesca se apagam, o futuro da nação aparece-nos dolorosamente incerto, obscuro quanto a um programa de desenvolvimento concreto, e já com retardos sociais e econômicos à porta. Há analistas que apostam mesmo nessa inércia, pedindo por isso, por temerem grandes fracassos sociais, entretanto, tais fracassos não serão assim evitados. Corrupção endêmica, descrédito econômico, rejeição às políticas mundiais de proteção ao meio ambiente, às comunidades indígenas, aos direitos humanos e à justiça social formam perdas incontornáveis.

O mal início, com sinais evidentes, é o que mais preocupa a muitos. Afinal, esse tem sido um Governo que faz pouco, fala pouco, argumenta menos ainda quanto a como resolver as chagas sociais que afligem o país. O Congresso segue igualmente inábil, sem bases fundamentais para bem legislar, com retorno dos trabalhos previsto somente para segunda quinzena de março.

Diante do enorme trabalho social que precisa ser feito, vê-se um país estagnado, atrasado no que se refere a iniciativas legítimas de melhorias sociais. Assiste-se a um Governo inebriado, a conduzir na contramão da justiça social. Tem-se a nítida impressão de que Bolsonaro, empossado há dois meses, parece seguir em modo desbaratado e letárgico, mas sempre num rumo contrário ao que realmente precisam os brasileiros. Diferente de 160 países membros da ONU, recusa-se a integrar o Brasil ao Pacto Global para a Migração, nem apresenta em seu programa como vai intervir num contexto dramático de 12,7 milhões de brasileiros desempregados (último levantamento do IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Terminado o carnaval, os brasileiros seguem as suas rotinas, caminham sob o peso do cansaço dos longos dias de festa, de tamanha folia, mas não escondem o incômodo sabor amargo da ressaca e o ar inebrio espalhado por toda a nação. Continuamos a ser milhões embevecidos de expectativas, dúvidas e medo.

Agora é o início do grande desafio, que precisa ser enfrentado pela sociedade civil e pela imprensa brasileira nos próximos meses e nos próximos anos. O que devem fazer os milhões de cidadãos brasileiros que se sentem infelizes com as baixas perspectivas de políticas públicas anunciadas pelo atual governo? O que precisam fazer os outros milhões que agora se revelam duvidosos do seu próprio voto, mas que afinal sustentam, sob argumentos frágeis, a sua fé em melhorias sociais e numa redução da corrupção?

O que fazer uma sociedade civil que se vê ameaçada, perseguida em seus propósitos legítimos de sensibilizar todos a repensarem valores e lutarem contra comportamentos nocivos ao futuro sustentável do país e de nossas novas gerações? O que fazer, em especial, a imprensa para lidar com suas coberturas sobre um modelo de gestão política que fala tão pouco com os jornalistas, deixa-os sem respostas, faz ameaças à liberdade de expressão e que tem um diálogo zero com a sociedade? Como lidar com tamanha incapacidade de debate e de resposta às críticas e aos questionamentos públicos, com o silêncio e o desprezo ao trabalho dos jornalistas, e ainda, com as narrativas falsas e polêmicas espalhadas pelo próprio presidente nas redes sociais?

Os brasileiros não irão baixar suas resistências a esse governo, é o que acreditamos. Esse é um momento que requer observância e reação, não permitindo que se instalem o conformismo e a inoperância social. Esta é uma responsabilidade que a sociedade civil precisará abraçar desde agora. A esperança também recai na mídia. A grande imprensa brasileira não poderá estar mais refèm dessa inércia, que tem sido por vezes conveniente para ela. Será a sua prova de fogo, diante de similaridades de difamação dos media por Bolsonaro como vem sendo feito por Donald Trump, nos Estados Unidos.

O jornalismo brasileiro tem como nunca o seu papel social amplamente observado e possui a chance de reforçar-se como agente de vigilância e crítica ao atual governo, podendo inclusive alterar as regras do seu convencional modelo de negócio, atraindo a própria sociedade como aliada, apoiadora, financiadora.

Mais que nunca, o jornalismo brasileiro precisa avançar em sua atuação de mediador da informação pública, com menos denuncismo, mais liberdade, rigor, ética e verdade na informação que torna pública. Precisa equipar-se mais fortemente com tecnologias, treinamentos e reforços às ações estratégicas de investigação, fact check , de análise da atualidade e de combate efetivo às notícias falsas e manipuladas.

Investigar, analisar, questionar, pressionar governo e políticos sobre seus feitos e respostas às problemáticas sociais terão que ser ações postas à frente de tudo, como a própria razão do seu trabalho. Caso contrário, a imprensa brasileira será novamente arrastada pela ambição de vantagens e lucro fáceis de seus grupos corporativos, subjugando o jornalismo à situação de refém do poder. Pagará ela própria mais uma vez o custo alto que se cobra por cedências aos maus governos: um processo generalizado de desinformação das pessoas, o descrédito social dos media como mediadores da informação pública e a própria liberdade de imprensa, dando margem a atos difamatórios, ameaçadores e controladores do exercício livre do jornalismo.

Passado o Carnaval, é o início de tudo no Brasil. E no presente contexto, há tudo por fazer!

Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Pesquisa o jornalismo e as noticias no contexto de web e redes sociais.