A política britânica não navega em águas calmas. Primeiro, foram os eleitores que frustraram a tentativa de legitimação interna de Tony Blair ao aprovarem o Brexit. Depois, foi a vez de Theresa May descobrir que não é Margareth Tatcher quem quer. A leitura de A Arte de Bem Governar não é suficiente para fazer uma estadista. Agora, chegou a vez de Jeremy Corbyn, o líder da oposição.

A apresentação de uma moção de censura a Theresa May, e não ao seu Governo, constitui a prova mais recente da falta de coerência do líder trabalhista. De facto, se o Governo de May tivesse aceitado discutir essa moção na Câmara dos Comuns, a decisão, qualquer que fosse, não teria caráter vinculativo. Seria uma espécie de tiro de pólvora seca. Um jogo do faz-de-conta ao serviço do Estado-espetáculo. Mais uma tentativa de Corbyn no sentido de ganhar mediatismo.

Uma forma de estar na política que já levou vários estudiosos do populismo a assinalarem que o seu discurso apresenta marcas populistas. Um dado a que convirá estar atento, pois é possível que o líder do Partido Trabalhista esteja a procurar captar parte do eleitorado do UKIP, o partido populista e eurocético em muito responsável pelo Brexit. Daí a ameaça de avançar para uma nova moção de censura, desta vez ao Governo, caso este não consiga fazer aprovar o atual texto do acordo.

Por falar em Brexit, diga-se que a posição de Corbyn sobre o assunto volta a não abonar a favor da coerência. O líder trabalhista sabe que o congresso do partido realizado em Liverpool, em setembro de 2018, aprovou por larga minoria uma moção que admite a realização de um novo referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. Só que, como ficou patente na recente entrevista que concedeu ao The Guardian, não é essa a sua vontade. Para ele, a saída é um dado adquirido. Sente-se escudado nos cerca de 60% dos seus eleitores que votaram a favor do Brexit.

En passant, diga-se que esse dado deveria merecer mais reflexão, uma vez que o sistema eleitoral britânico é maioritário e elege os deputados em círculos uninominais. A conhecida fórmula first past the post deixa de lado a proporcionalidade. Por isso, o que interessa saber não é a percentagem, mas sim o sentido de voto nos vários círculos que elegeram os 257 deputados trabalhistas.

Face ao exposto, importa questionar o que tem Corbyn para oferecer aos eleitores, no caso de haver eleições antecipadas no início de 2019. Segundo o próprio, a possibilidade de um novo acordo com Bruxelas. Um acordo que, obviamente, salvaguarde os interesses britânicos. Por isso, pretende que a saída do Reino Unido da União Europeia represente a passagem da atual união política ou supranacional para uma união aduaneira.

Talvez convenha lembrar que a integração regional contempla, segundo Viner e Balassa, uma hierarquia de cinco fases: zona de comércio livre, união aduaneira, mercado comum, união económica e união política.

Como se percebe, a proposta de Corbyn relativamente ao futuro relacionamento do Reino Unido com a UE representa um downgrade. Em nome da soberania nacional, pretende manter apenas a livre circulação de produtos e uma pauta comum relativamente a países terceiros. Dito de uma forma mais direta: o líder trabalhista quer afastar a desconfiança das carteiras britânicas.

A sua aposta passa por dizer aquilo que sabe que os cidadãos britânicos, na sua maioria, querem ouvir. Os bolsos são um conforto para o cérebro. A vontade de questionar amolece. Uma estratégia que vem desde meados do século XIX, altura em que Herzen inventou o populismo. Uma escola com muitos alunos e uma extensa lista de candidatos. De esquerda e de direita.

Corbyn está a esforçar-se para que a História inscreva o seu nome na lista.

Professor de Ciência Política