E foi assim que, antes que soassem as 12 badaladas de 31 de Janeiro, o Reino Unido se separou oficialmente da União Europeia. Uma separação entre litigiosa e de comum acordo, saudada com euforia contida pelo primeiro-ministro Boris Johnson e com fúria, também contida, pelos seus homólogos Emmanuel Macron e Angela Merkel. Tinham sido 47 anos de convívio e união, embora sempre com reservas da parte britânica, que os realistas complacentes preferiam interpretar como um modo subtil de sabotar a unidade do continente.

O Brexit, saído do referendo de Junho de 2016, no seu surpreendente sucesso, acabou por ser também o sinal de partida de um movimento que iria pôr em questão a ordem internacional dominante desde o fim da Guerra Fria – a ordem do liberalismo globalizador, que olhava nações e fronteiras como velharias fora do tempo e do modo, condenadas pelo futuro. Depois viriam as eleições de Trump e de Bolsonaro, a consolidação dos movimentos e partidos nacionalistas e populares na Europa, uma “revolta dos povos” contra o que parecia estabelecido e determinado pelas forças misteriosas e tectónicas da Economia e do Progresso.

Na verdade, o que acontecera no Reino Unido fora uma decisão maioritária de uma comunidade que lia a realidade político-económica por valores diferentes: uns preferiam correr o risco de ser menos ricos ou afluentes mas mais independentes. Outros, ao contrário, olhavam para a política e para o país numa óptica mais económico-financeira ou de cidadãos de um mundo globalizado, subalternizando as questões da soberania.

Este reducionismo do político ao económico e do nacional ao global tinha sido um dos subprodutos do final da Guerra Fria, com a auto-destruição da União Soviética, a contra-revolução capitalista da República Popular da China e a conclusão incontestada de que o capitalismo liberal e democrático era o postulado supremo da filosofia e da organização política.

Contra o Brexit ergueram-se, internamente, os órgãos mediáticos do establishment, como o The Economist ou o Financial Times. E parte da classe política – liberais e trabalhistas, mas também alguns conservadores – iniciou uma guerrilha político-constitucional que teve por palco principal o Parlamento de Westminster e que procurou inviabilizar, anular, retardar, o cumprimento do voto popular de Junho de 2016.

O mundo assistiu, interveio, comentou. E Portugal, no seu melhor, também. Como se de uma questão de vida ou de morte se tratasse. Os mesmos políticos e comentadores que aqui se abstêm de comentar, de debater ou sequer de referir o que em Portugal é, de facto, uma questão de vida ou de morte – e que parece prestes a passar leviana e apressadamente a lei –, não se abstiveram de expressar profusamente o seu horror perante a leviandade e a precipitação dos “ingleses ignaros” que, sem medirem as consequências, votaram a saída da União Europeia. Mas voltarei em breve a Portugal, à eutanásia e à insidiosa ligeireza em volta da lei que alguns querem a todo o custo fazer passar como moeda de troca ou rebuçado dado à nova esquerda globalista.

O Brexit, que terá, com certeza, algumas consequências imprevisíveis e até danosas, não é, contudo, uma questão de vida ou de morte. Nem tão pouco marca uma ruptura profunda no que tem sido a história de amor e desamor da Grã-Bretanha com o Continente.

A Grã-Bretanha quebrou várias vezes com o Continente para combater ou impedir hegemonias. Desde os tempos de Henrique VIII que uma tórrida paixão real e a pilhagem dos bens dos mosteiros a levaram à ruptura com Roma; e desde os combates contra as hegemonias europeias de Filipe II, de Luís XIV, de Napoleão ou de Hitler que a “splendid isolation” – acompanhada de um igualmente esplendoroso ímpeto imperial – moveu a singularidade britânica.

Uma singularidade que vem de uma antecipação à história político-institucional europeia: o Parlamento inglês foi o pioneiro das assembleias representativas com poder, e os representantes ingleses, ao mandarem cortar a cabeça a Carlos I, foram os pioneiros da decapitação real, século e meio antes de os revolucionários franceses de 1793 se iniciarem na prática.

Desde então, a oligarquia manteve um modelo de constitucionalismo liberal que conseguiu equilibrar com um grande império. A Coroa serviu de elo de continuidade e de polo aglutinador e, com um protocolo singular e exótico, foi ajudando a manter uma evolução na continuidade, ao contrário de outras oligarquias e modelos euro-continentais.

Fazendo da eleição de Dezembro um referendo ao Brexit e depois de a elite globalista e eurófila ter tentado parar, congelar ou reverter a sua conclusão, Boris Johnson conseguiu conquistar uma faixa importante do eleitorado operário, que lhe deu uma maioria considerável em áreas do centro-norte de Inglaterra onde os conservadores não ganhavam há muito.

Até ao fim deste ano, negociada a transição, continuam em vigor as regras do livre movimento de pessoas, capitais, mercadorias e serviços. Depois, claro, haverá problemas. E sérios. O mais sério de todos diz respeito à própria unidade do Reino Unido, com o potencial separatista escocês e a questão das fronteiras da Irlanda do Norte e da sorte dos Unionistas.

Está também de pé a negociação de Londres com a União Europeia quanto às relações comerciais, e no futuro haverá, para o governo de Johnson, decisões, escolhas, procura de apoios – Estados Unidos, União Europeia, China. Johnson prometeu sair do tradicional liberalismo conservador e investir fortemente no Serviço Nacional de Saúde, nos caminhos-de-ferro e no reavivar da indústria nas zonas desindustrializadas. Mas os Brexiters, como toda a comunidade política unida em torno de um fim comum, podem desagregar-se uma vez cumprido o objectivo que os juntou, e os trabalhadores que se passaram dos Trabalhistas para os Conservadores e esperam a volta dos good old days da indústria britânica de exportação podem vir a desiludir-se.

Terminada esta segunda batalha de Inglaterra – que os mais exaltados Brexiters comparam à vitória sobre a Invencível Armada, a Waterloo ou à resistência ao Blitz – vai ser necessária muita imaginação para prevenir os riscos políticos emergentes e para desmentir as previsões apocalípticas de alguns Remainers. Para tal, além das condições de fundo e de uma sólida maioria de 80 lugares nos Comuns, Boris Johnson vai precisar de alguma, se não de muita, imaginação. Parece ser coisa que não lhe falta.