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Nem a Dra. Graça Freitas, nem o Dr. Lacerda Sales, nem o Dr. Marques Mendes, nem sequer o subtilíssimo Marcelo (que depois entrou em pânico e na perversidade política consequente) conseguiram descobrir qualquer “evidência científica” que anunciasse o que se passou nestes últimos dias. Os comentadores quase todos, muito desembaraçados, declararam que o real actual era impossível.

Quando o Circo Costa chegou à cidade, o coro maravilhado não se calou. Vinha aí o maior espectáculo do mundo, o sol radiante que substituiria a noite negra, o deslumbramento da cultura face ao inominável horror da incultura, a atenção ao humano contrariando a paixão do não-humano. Como convém a todo o verdadeiro espectáculo, convinha que ele assentasse num mito fundador. O mito fundador do Circo Costa, anunciado em grandes cartazes por todo o país, era simples e enunciável de forma simples, mais simples – muito mais simples – que o mais simples mito primitivo: o “virar a página da austeridade”.

A pouco e pouco vieram chegando notícias do Circo Costa, notícias que nos diziam que os “trabalhadores do espectáculo”, como se diz, não eram os melhores. Começou a ter-se a prova clara de que o rosto feliz dos artistas dissimulava, cada vez mais dificilmente, uma ficção incongruente. Uma ficção incongruente: um enredo no qual os personagens não apenas oscilavam nas suas características psicológicas mas tinham duas naturezas, que ora se combinavam numa forma, ora se combinavam noutra. Num romance, até pode ter graça – embora, segundo a minha experiência, seja raro. Na realidade, é uma desgraça. Lidamos mal com a labilidade e a duplicidade. A má-fé e a reserva mental estragam-nos a vida. Isto, que vale para a vida pessoal, vale também para a vida política.

O grande empresário político dos nossos dias, Marcelo, suspeitando que o espectáculo atrairia o público, deu-lhe, entusiasmado, cobertura. Estava com Costa aqui e ali, e Costa ali e aqui com ele estava. O namoro aparecia em todas as revistas cor-de-rosa, e os jornais sérios embeveciam-se com prosa teórica delicodoce. Os telejornais competiam em imagens amorosas. E acabavam com o equivalente das declarações: “Somos só bons amigos”.

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Até que algo começou, aos olhos do público, a correr mal com o Circo Costa. O mestre de cerimónias, no seu impecável fato de lantejoulas brilhantes, ofereceu-se à plateia, complementando o seu habitual exercício de equilibrismo, como homem-bazuca. Aos gritos e pulinhos, anunciou o seu novo estatuto pelo país inteiro. Era “o Grande Bazuco”.

O problema é que o circo definhava. O palhaço pobre, Eduardo Cabrita, sem ajuda na rábula de nenhum palhaço rico, perdeu o tino que nunca teve e multiplicou-se em graças que nunca agradaram ao público, até porque a não tinham. O domador de animais ferozes, João Leão, esgrimia o chicote “cativações” e o animal feroz de serviço neste circo tão doméstico, Pedro Nuno Santos, ameaçou-o de boca feroz, num rugido televisivo, sem que o mestre de cerimónias dissesse uma palavra. Os restantes animadores – João Pedro Matos Fernandes, Tiago Brandão Rodrigues, Marta Temido e Graça Fonseca – davam voltas e voltinhas circulares, acenando aos espectadores, de cavalo e de triciclo, com sorrisos postiços. Passavam outros também – Nelson de Souza, Ana Abrunhosa, Maria do Céu Antunes, Ricardo Serrão Santos (conhecem-nos? são ministros) – e circulavam igualmente personagens que apareciam aqui e ali, por razões que ninguém percebia ou que se percebiam demasiado bem.

Razões que só se podem classificar como laborais levaram Jerónimo de Sousa e Catarina Martins a abandonar o circo. Andaram a ajudar a montar a tenda nestes últimos anos, de foice e martelo na mão, e não lhes pagavam o que pediam. Uma tristeza! Jerónimo optou por espectáculos ao ar livre, onde ainda tem, por enquanto, público garantido e organizadores eficazes. Catarina decidiu por Catarina, isto é, por nada. Mas ambos tristes. E com razão, bem vistas as coisas. O circo foi-lhes cortando os vários membros do corpo e, a cada corte, ofereceu-lhes um berloque que muito lhes agradou e, regra geral, chateou à brava os espectadores, sem que grande parte destes percebesse bem que os berloques iam corroendo a estrutura da tenda. Até que ficaram só com a cabecinha falante, tristíssima pelas amputações sucessivas, mas com o mesmo mobiliário que tinha quando tinham o corpo inteiro.

O toldo caiu em cima dos espectadores quando os suportes foram cortados pela foice tão parceira do martelo que pregara os suportes da tenda. Dir-se-á que se passa bem sem um espectáculo ou outro. O problema é que ficamos todos a esbracejar debaixo do toldo, aos encontrões desesperados uns aos outros, por culpa única e exclusiva do mestre de cerimónias, com um cartãozinho nas mãos que nos fala das maravilhas da transição climática e digital. A confusão é geral. A única solução, é claro, é buscar a saída. Há um pequeno letreiro, ao fundo, que diz: “Eleições”. Pode não resolver tudo – não vai resolver – mas alivia. Com sorte, alivia desta tão catastrófica combinação do mais descarado oportunismo e do mais consumado arcaísmo ideológico. O Circo Costa teria muito sucesso, creio eu, em Zanzibar. Marcelo, de resto, também lá ficaria bem.