Cancro

Cancro da mama: a dimensão social

Autor
  • Isilda Pegado

Há uma nova forma de vida (com cancro) que deve ser acolhida socialmente. Não basta que cada um faça por si. Há que perceber que cada vez mais o cancro é uma realidade para largas faixas da população.

1. O mês de Outubro é, internacionalmente, dedicado ao cancro da mama.

Ao longo deste mês, organizam-se conferências, actos lúdicos, debates e muitos outros factos que chamam a atenção para esta doença que tanto preocupa e ocupa as nossas sociedades.

2. Longe vai o tempo em que ter cancro era estigmatizante. Hoje convivemos com aquelas que passam por tal doença, com dor e sofrimento, mas de uma forma inclusiva, natural e desdramatizante. Para tanto têm contribuído, em muito, os avanços da medicina que cada vez mais encontra terapêuticas capazes de “curar” e minorar a doença.

3. Também por todo o mundo têm existido associações, movimentos, ONG’s ou simples grupos de voluntários que trabalham em prol deste apoio social e pessoal às doentes. Desde o apoio emocional, ao estético, do apoio logístico (alojamento junto dos centros hospitalares) ao psicológico, desde o apoio científico ao mecenato nos diferentes campos, há um “mar” de louváveis trabalhos. Em Portugal o voluntariado é uma riqueza.

4. A Liga Portuguesa contra o Cancro é talvez a mais emblemática de todas as organizações em Portugal. Mas muitas outras giram em seu redor ou são independentes da Liga.

Uma dessas organizações é a Europa Donna criada em Itália há 23 anos rapidamente se espalhou por mais de 47 países. Tem como missão a defesa dos direitos das mulheres com cancro da mama. Defesa essa que é feita perante os poderes políticos e sociais de cada país ou em organizações internacionais (U.E.).

5. Várias têm sido as áreas abrangidas por esta Defesa, como sejam a implementação do rastreio da mama com carácter universal e de qualidade. A defesa da criação e funcionamento de “unidades pluridisciplinares” para os tratamentos. A aposta nos meios preventivos, nomeadamente através de uma cultura que traga bons hábitos alimentares, a prática do desporto, o combate à obesidade e aos consumos de tabaco e álcool. Neste sentido advoga-se não só que essa qualidade de hábitos de vida pode prevenir o aparecimento do cancro como também, e caso este venha a surgir, os bons hábitos tornam o corpo mais apto a receber os tratamentos.

6. Também assim, se tem advogado que a doença não define a pessoa. Como ainda há bem poucos dias se dizia num colóquio, e na primeira pessoa: “Eu tenho cancro, mas o cancro não me tem a mim”. É da força destes testemunhos que brota em cada circunstância cada vez mais esperança para as mulheres.

7. Muito mais há a fazer, nomeadamente na legislação laboral e social. Já todos assistimos às dificuldades paralelas que surgem quando se detecta a doença, no trabalho, nos projectos em mãos, na gestão da vida doméstica, com os filhos que estão dependentes da mãe, etc., etc. Tudo se altera e sofre.

Hoje fala-se mesmo na ruptura dos papéis familiares, sociais, da vida profissional e emocional. Como ajudar e apoiar estes sofrimentos e dificuldades?

Poderá e deverá pensar-se, e levar a letra da lei, uma discriminação positiva das portadoras de cancro da mama?

8. Cremos bem que não só será da mais elementar justiça, como também, a seu tempo, dará frutos de grande utilidade com melhor e maior recuperação.

Há uma nova forma de vida (com cancro) que tem de ser acolhida socialmente. Não basta que cada um faça por si. Tenhamos consciência cívica e política de que cada vez mais o cancro é uma realidade para largas faixas da população. Há já quem fale no cancro como “uma nova epidemia”. As respostas sociais urgem.

Em Lubliana, nos próximos dias 28 e 29, a Europa Donna fará o seu Encontro Europeu Anual com o tema – “From Policy to best Practice” (Da política às boas práticas). Lá estaremos, com esperança.

Europa Donna (Representante Nacional), Liga Portuguesa contra o Cancro

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