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1 A candidatura de Carlos Moedas à Câmara de Lisboa é uma boa notícia para a direita. Antes de mais, porque ganhar a capital é a única hipótese que a direita tem para vencer as autárquicas, uma vez que não se espera grandes resultados no resto do país. Além disso, mesmo que Moedas não ganhe, se fizer uma boa campanha e conseguir um bom resultado contra o hipotético sucessor de Costa, a direita ganha finalmente um líder que pode ser alternativa ao PS.

Muitas vezes se ouve o queixume de que, faça este Governo o que fizer, não desce nas sondagens. E a explicação é simples: por muito mau que seja o desempenho dos socialistas, pouca gente acredita que Rio conseguisse fazer melhor!

Carlos Moedas é um homem respeitado e um político com currículo. Falta-lhe o teste da rua. Fazer campanha, convencer os eleitores, ganhar votos. Um bom resultado em Lisboa torna-o numa forte alternativa a António Costa.

2 O Partido Socialista governa Lisboa há quase 14 anos, seis dos quais sob a presidência de Fernando Medina. O actual edil tem usufruído de extraordinárias condições. A venda dos terrenos do aeroporto ao Governo permitiu sanear as contas da câmara e o crescimento do turismo, acompanhado pela explosão imobiliária, permitiram encher os cofres. E Medina não se fez rogado a gastar o dinheiro camarário.

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Lisboa está hoje marcada pela visão de Medina. Uma cidade mais cosmopolita, mais turística e até mais bonita. Na Lisboa pré-pandemia era possível arranjar com facilidade bons restaurantes, bons hotéis, boas zonas de lazer. Andar de bicicleta e trotineta nunca foi mais fácil! A Lisboa de Medina é um postal que o autarca espera suficiente para o levar dos Paços do Concelho a São Bento.

O problema é que nesse postal moram pessoas. Pessoas que viram a sua vida piorar para que o postal ficasse bonito. Durante estes anos, o trânsito em Lisboa piorou, o estacionamento piorou, os transportes pioraram, as rendas ficaram mais caras. Lisboa é hoje uma cidade para ricos, onde a pouca classe média tem cada vez menos espaço e os pobres vivem confinados em pequenas ilhas onde a febre obreira de Medina não chegou.

Carlos Moedas tem caminho aberto para propor um plano da verdadeira direita social para a cidade. Um plano onde o turismo não seja inimigo dos moradores e onde a ecologia não passe por infernizar a vida dos habitantes. Um plano que facilite a vida às famílias, que responda às necessidades dos mais pobres, que não se esqueça dos milhares idosos abandonados nos bairros agora na moda.

3 A candidatura de Carlos Moedas tem, contudo, um problema. O candidato tem pouca ligação a Lisboa e nenhuma experiência autárquica. O seu partido tem vivido tempos conturbados na capital, pelo menos desde 2007, quando Carmona conseguiu superar Fernando Negrão. Carlos Moedas precisa, urgentemente, de integrar na sua candidatura autarcas com experiência.

Para isso, será essencial o parceiro de coligação do PSD. O CDS vem de um resultado de 20% em Lisboa, que não pode ser ignorado. Tem uma equipa autárquica estável, que tem feito um belíssimo trabalho nos últimos oito anos e que liderou a oposição nos últimos quatro. Para além de Assunção Cristas, o sucesso do CDS em Lisboa tem dois rostos, que são reconhecidos pelos lisboetas: João Gonçalves Pereira e Diogo Moura. Serão, por isso, dois activos insubstituíveis, capazes de dar à candidatura de Moedas a experiência autárquica e o conhecimento da cidade que necessita, não apenas para ganhar as eleições, mas para ter um mandato de sucesso.

É público o actual ambiente de crispação interna no CDS. Mas é importante que essa crispação não se sobreponha àquilo que é melhor para a cidade e para o país. Os eleitores da direita dificilmente iriam compreender que se colocasse em risco uma eleição tão importante por questiúnculas internas.

4 Participei activamente na campanha de Pedro Santana Lopes à Câmara de Lisboa em 2009. Na noite da derrota de Santana era notório que, nos partidos que o apoiavam, havia certos sectores que festejavam tanto como os socialistas. Mais do que qualquer demérito do antigo Primeiro-Ministro, ou mérito do vencedor, a eleição tinha-se perdido sobretudo por sabotagem interna. Seguiram-se mais 12 anos de poder socialista em Lisboa e António Costa seguiu, mais tarde, da câmara para Primeiro-Ministro, cargo que ocupa há seis anos.

Seria bom que os presidentes do PSD e do CDS se lembrassem dessa eleição. Porque aqueles que não recordam o passado estão condenados a repeti-lo.