Cara colega Marisa Matias,

Ainda está na minha memória aquela manhã, há tantos anos atrás, em que nos encontrámos num debate da Rádio Regional do Centro. Foi aí que conheci a Marisa Matias, e em privado comentei que ali estava uma jovem talentosa da política e para a política.

Não me enganei, porque daí até hoje tem estado sempre nos palcos e com muita intervenção. A sua postura tinha até alguma moderação na defesa dos seus ideais — manifestamente diferentes dos meus — e com isso a conquistar eleitores. Ainda na última campanha para as Eleições Europeias, isso foi bem notório. Era a Marisa tranquila, no meio de tanta demagogia bloquista.

Eis senão quando aparece a Marisa, demagógica e com a consciência política seguramente muito pesada, pelo facto do seu camarada José Gusmão ter estado ausente de uma determinada votação, ao qual acrescem mais 4 eurodeputados da sua própria bancada, que também estiveram ausentes.

Ou, eventualmente, pela sua colega de bancada parlamentar, da República Checa — a comunista Katerina Konečná — ter mesmo votado contra aquilo que era defendido por si.

Ou, quiçá, pelos 4 Deputados do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu (cujo Grupo decidiu apoiar a votação referida), terem votado contra a Resolução por si defendida e outros 5 se terem abstido…

Ou mesmo por mais de 20 Deputados deste Grupo terem igualmente faltado a esta votação, tais como os 5 do seu próprio Grupo (Esquerda Unitária) ou os mais de 10 do Grupo dos Verdes/ALE (cujo Grupo também apoiou a referida Resolução)…

Apesar de tudo isto, resolveu criar notícia e tentar intoxicar a opinião pública com mentiras e falsidades sobre os seus colegas eurodeputados pertencentes a outras bancadas partidárias que não a sua e que por isso e logicamente pensam de forma diferente.

Nada lhe diria, não fosse o caso de se tratar de um assunto que ambos sabemos muito complexo, e que mexe com princípios, valores e com sentimentos humanos, muito para além da política.

É por isso e apenas por isso, que lhe escrevo esta carta, ou este email, como agora é mais apropriado.

Veja só: a Resolução do PPE, que votei a favor e a Marisa contra, diz por exemplo, assim: “Reitera a obrigação decorrente do direito internacional do mar de prestar assistência a pessoas em perigo”, instando ainda ”os Estados-Membros e a Frontex a intensificarem os seus esforços de apoio às operações de busca e salvamento no Mediterrâneo” e exortando “todos os intervenientes no Mediterrâneo a transmitirem às autoridades competentes quaisquer informações relativas a pessoas em perigo no mar”.

E como votou a Marisa? Contra… Votou contra! Significa isto que é contra o salvamento? Contra a obrigação decorrente do direito internacional do mar de prestar assistência a pessoas em perigo? Contra os Estados-Membros e a Frontex intensificarem os seus esforços de apoio às operações de busca e salvamento no Mediterrâneo?

Na sua visão, sim. Na minha, não. Veja a ironia do destino… Sou eu que a defendo ao não fazer uma leitura que a julga como desumana. Mas foi o que a Senhora fez.

Acha justo? Acha correcto? Ou as operações de busca e salvamento só valem se forem propostas pela Esquerda política?

Por mim não… Não há ideologia. Há humanismo, há sentimento. E foi isso que a Senhora não teve ao escrever o que escreveu. Na política, não deve valer tudo. E em matérias desta sensibilidade e com esta delicadeza, muito menos.

Tê-la-ia acompanhado num lamento pelo facto do Parlamento Europeu, numa matéria tão relevante não ter conseguido chegar a um acordo. Tê-la-ia igualmente acompanhado no apoio ao regresso imediato à negociação, de forma a redigir uma nova Resolução que possa expressar a pluralidade de opiniões existente neste Parlamento (como aliás fiz na minha declaração de voto).

Para terminar, quero informá-la que há quatro anos, e enquanto presidente da Câmara Municipal da Guarda, propus na Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela, que aí fosse desenvolvido um programa de modo a tornar-se uma comunidade de acolhimento de migrantes.

Por várias razões, uma delas e desde logo, por homenagem a tanta e tanta gente – os nossos emigrantes — que de lá saíram, e que sempre desejámos bem acolhidos nos países de destino.

Foi isso que propus.

E cara colega, sempre havemos de divergir no pensamento e na acção política. Temos visões muito diferentes da Europa de hoje e de amanhã. Mas acredito na responsabilidade humana.

E continuo a acreditar que a Marisa tem a capacidade de perceber bem que na vida e na política há momentos em que podemos errar. Basta termos a humildade do seu reconhecimento.

Com os melhores cumprimentos,

Álvaro Amaro