Vossa Excelência Presidente da República Portuguesa, escrevo-lhe esta missiva aberta com a finalidade de lhe dar conta do elevado grau de desilusão e de descontentamento que grassa, sobretudo entre os membros de uma geração que outrora apelidada de rasca, pertencente na realidade à “geração à rasca”. Refiro-me à geração que foi criança durante a década de 80 e jovem durante a década de 90. Refiro-me àquela geração à qual fizeram acreditar na maior das mentiras do milénio: a mobilidade social, isto já para não mencionar o Ensino e a Saúde “tendencialmente” gratuitos para todos, independentemente das suas origens. Refiro-me, pois àquela geração a quem prometeram um futuro melhor do que o dos seus pais e dos seus avós.

Ora, repare V. Exa., que eu e a maior parte da minha geração não é dada a queixumes, é uma geração que foi construída, moldada e educada para “aguentar o barco, venha lá o que vier”, é uma geração que trabalhou e continua a trabalhar, possui uma forte ética de trabalho, aliás esforça-se para além dos limites do razoável. Porém, todos os dias nos surgem notícias, no mínimo “intrigantes” nos meios de comunicação social, sendo que duas delas são, de facto, assombrosas: a dívida externa e as injecções de capital efectuadas no Novo Banco. Pois, para além de estarmos endividados, quiçá até à oitava geração, ainda andamos a deitar, literalmente dinheiro fora! E, eu que pensava que Portugal era um país humilde e pobrezinho!

Com o devido respeito V. Exa., não é preciso ser economista, fiscalista ou gestor, para saber que quando uma empresa, pertença ela a que ramo económico pertencer, começa a ter tantas perdas ou melhor dito lucros negativos, como certos economistas gostam de lhes chamar, salva-se o que se pode, quando tal ainda é possível e começa-se o processo de insolvência, o qual  depois levará à falência da empresa. No meio disto tudo, são apurados os credores e tudo é tratado nas devidas instâncias. É claro, que em virtude de tal, postos de trabalho são extintos e subsídios de desemprego e a devida reinserção social, (que em Portugal como todos sabemos é uma grande piada), tem de ser atribuída a todos os funcionários em questão. Ah, e sim é verdade a estatística do desemprego sobe, mas não é nada que o seu amigo o Exmo. Primeiro-Ministro António Costa, não faça logo “encolher” com umas inscrições nos cursos dos Centros de Emprego, cujo grau de empregabilidade todos parecem desconhecer.

O que não se deve de todo fazer, V. Exa., é colocar toda a sobrevivência económica e financeira de um país em risco. Pois que eu saiba a maioria dos portugueses não trabalham no Novo Banco e também não trabalhavam no BPN, pois não? Mas, ninguém se importou em sacrificar um povo inteiro em prol, exactamente do quê ou de quem, alguém saber-me-à responder?

  1. Exa. Presidente da República, com o devido respeito há muito que deixei de acreditar que foi tudo para salvar postos de trabalho, eu própria tinha familiares a trabalhar no BPN e nem eles acreditaram nessa “cantilena”. Será que V. Exa., não se questiona como estaremos daqui 2 ou 3 anos? E quem irá pagar a factura dessa vez?
  2. Exa., colocar um país, um povo inteiro refém de interesses económicos e financeiros alheios ao superior interesse do Estado, sim do Estado, que somos todos nós; continuar a confiar no Banco de Portugal e a distribuir galhardetes, como dizia o bom do meu avô, não sei se será apenas de um extremo optimismo, de uma ingenuidade brutal ou pura e simplesmente criminoso.

Mas, sinceramente, V. Exa., a verdade é que não sei porque é que eu um simples membro da «geração à rasca» me espanto ou choco com tudo isto. A História está aí para quem quiser olhar para ela com olhos de ver, este jardim à beira-mar plantado possui séculos e séculos de tradições na arte do compadrio, da vigarice, da corrupção, dos furtos a céu aberto e dos crimes sem punição. Enquanto, V.Exa. , «a geração à rasca» luta todos os dias pela sobrevivência, para pagar as contas ao fim do mês e fica estupefacta perante tanto afecto presidencial, tanta conivência entre os poderes soberanos, mais especificamente entre Presidência da República e Governo, especialmente quando o Presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande, região devastada por tamanha desgraça se revela mais um patife sem punição. A «geração à rasca» também não deixa de ficar atónita, V. Exa., quando os nossos enfermeiros são tratados por parte do governo como gaiatos de 2.ª ou 3.ª categoria, ou ainda quando os professores continuam a ser desprezados e humilhados em grande estilo e, como não mencionar os oficiais de justiça, que “fazendo a papinha toda aos Exmos. Srs. Drs. juízes”, trabalhando horas desmesuradas e sendo miseravelmente remunerados, mesmo assim não conseguem evitar que certas alminhas tipo o Exmo. Sr. Dr. Juiz Neto de Moura proclamem autos imbuídos da sua autoridade, grande sapiência e orgulho para toda a sua classe de “narizes empinados”, os quais por constituírem órgão “supostamente” soberano, julgam estar acima de tudo e de todos. Tamanha soberba, V. Exa., só poderia mesmo partir de um órgão de soberania que julga ter direito à greve, logo aí um grave contrassenso.  Coitadinhos dos juízes em Portugal, que devem ser uns injustiçados!…

Tenho uma confissão a fazer, eu votei em Vossa Excelência Presidente da República, porque na altura pensei que V. Exa., pudesse realmente marcar a diferença. Infelizmente, enganei-me, pois nem só de afectos vive o povo V. Exa.

E, se V. Exa. com todo o respeito que lhe devo, na sua enorme inteligência ainda não percebeu digo-lhe eu:

  1. O povo precisa de trabalhos que sejam remunerados condignamente;
  2. Os sem-abrigo para serem ajudados precisam que disponibilizem abrigos, nos quais eles possam dormir, proceder à sua higiene pessoal e quiçá reinserir-se na sociedade com o devido apoio de assistentes sociais (julgo que também é para isso que a profissão existe). Não basta a sopinha e o cobertorzinho nas noites frias e aparecer na televisão nas ceias de Natal;
  3. O povo precisa de ser respeitado e que lhe seja dita a verdade em relação à sustentabilidade da Segurança Social, entre muitos outros assuntos;
  4. O povo precisa de pessoas honestas, decentes, com honra, capazes de dialogar e de firmar compromissos nos assuntos mais fulcrais de um Estado de Direito e mantê-los até ao fim (para que as regras do jogo não estejam constantemente a mudar, mal muda o governo, seja à direita, seja à esquerda).

Isto é, o povo precisa de governantes e, não de dançarinos ou malabaristas, que apenas fingem dialogar, mas no fim dão um pezinho de dança para aqui outro para acoli, sempre destilando uma pomposa soberba, aliás característica de quem está embriagado pelo poder.

Assim me despeço de V. Exa.

Respeitosamente

Subscrevo-me

Carolina Pinto Basto