Tendo assumido responsabilidades diretivas em IPSS nomeadamente no CSPNSL que tem em funcionamento um equipamento social com ERPI (lar), Centro de Dia e Apoio Domiciliário, estando atualmente a apoiar 79 utentes, não posso ficar indiferente à forma como diversas entidades têm abordado as questões relativas aos Lares que se tem revestido de um academismo que é, em última instância, ofensivo para quem dirige este tipo instituições, assim como para com as suas direções técnicas e especialmente para com as(os) cuidadoras(es) que afincadamente lá trabalham.

Se atentarmos a situação das IPSS, nomeadamente, dos Lares, a 29 de fevereiro de 2020 teremos que constatar alguns factos que passo a enunciar:

  • Devido ao aumento da esperança média de vida, os utentes dos lares podem ser genericamente classificados em três grandes grupos: pessoas com alguma autonomia física e mental; pessoas com grande dependência física; pessoas com doenças do foro neurológico, sendo que algumas estão em boas condições físicas. Em síntese, a grande maioria das pessoas necessita de muitos cuidados, seja em termos de higiene pessoal, ajuda na alimentação e cuidados médicos e de enfermagem.
  • Por outro lado, a diminuição do desemprego, conjugado com a dureza física e psicológica que implica ser cuidador(a) e a necessidade de trabalhar aos fins de semana, tornou o recrutamento das(os) mesmas(os) bastante exigente e muitas vezes tendo que ser feito sem que as competências necessárias à função sejam integralmente verificadas.
  • Acresce a tudo isto que, nos últimos anos, as IPSS têm sido sujeitas a um grande aumento dos custos com pessoal, devido ao aumento legal e justo dos ordenados, mas que não tem sido compensado com o aumento das receitas, quer por impossibilidade das famílias, quer das insuficientes atualizações dos valores protocolados com a Segurança Social, cuja percentagem de cobertura das despesas tem descido sistematicamente todos os anos, como se constata claramente no estudo realizado pela CNIS em parceria com a Universidade Católica do Porto e que, entre outros dados, revela que no ano de 2017, 40% das IPSS tiveram resultados negativos, situação que naturalmente será mais grave atualmente.

Tendo em conta os factos acima referenciados, no dia 1 de março de 2020, tínhamos então IPSS com dificuldades financeiras, com dificuldades no recrutamento e com utentes com grande dependência no seu seio. É este o quadro com que as IPSS viviam antes da pandemia do COVID 19.

Com a declaração do estado de emergência no nosso país e tendo em conta as medidas publicamente conhecidas, a situação das IPSS ficou ainda mais difícil. Com o fecho das creches e das escolas alguns(as) colaboradores(as) tiveram que ficar em casa, e outros(as) por sofrerem de doenças de foro oncológico ou por terem o sistema imunitário enfraquecido, também necessitaram, por medida de precaução, de ficar resguardados(as) no domicílio. No caso do CSPNSL estão 20% do total de colaboradores(as) nesta situação.

Estamos a enfrentar uma situação de pandemia, com menos colaboradores(as), com um grau de exigência muito maior em termos de cuidados, mas como se percebe com menor produtividade, tentando nós manter o melhor possível a qualidade do serviço prestado. A isto somamos um evidente aumento da tensão sentida pelos utentes e pelos colaboradores(as), quer pela suspensão das visitas e um maior isolamento, quer pelas sucessivas (más) notícias diárias. O período da pandemia perspetiva-se longo pelo que é natural um aumento do número de colaboradores(as) que por razões físicas ou psicológicas entrem em situação de baixa médica, agravando a situação já em si difícil.

Tendo em conta o que já referimos, sublinhando novamente as imensas dificuldades que as IPSS têm passado e ainda por respeito pelo esforço diário e dedicação heroica dos(as) seus(as) colaboradores(as), não podemos ficar indiferentes e com um sentimento de incompreensão quando ouvimos comentários de que quando algo corre menos bem a responsabilidade seja destas instituições, apesar de todo o esforço que fazem para cumprir com as orientações para aplicação de Planos de Contingência, escalas em espelho, pessoal de reserva ou ainda a possibilidade de ter uma equipa médica e de enfermagem permanente. Não podemos deixar de salientar que apesar de serem medidas teoricamente corretas e com uma lógica plausível quando elencadas no gabinete, não deixarem de, por vezes, ser tão distantes da dura realidade vivida diariamente pelas instituições.

Bem hajam todos os que acolhem, servem e cuidam.

Paradas, 30 de março de 2020