Lembro-me da primeira vez que conheci os pais da minha ex-namorada catalã. Um dos primeiros comentários que fizeram, em tom de brincadeira, foi: “Quando a nossa filha nos disse que eras Português não ficamos muito contentes. Já sabes que detestamos Madrid e como o maior craque que têm é da tua terra…”. Nesse momento compreendi que algo de muito errado estava semeado.

Tentei compreender a sua causa, a história, mas os argumentos que apresentaram basearam-se em casos de corrupção generalizada em Espanha, críticas ferozes à Monarquia Espanhola, de como a Catalunha paga muito mais impostos que as restantes regiões Espanholas e pouco recebe do governo central. De pouco vale argumentar com casos de corrupção que se passaram na Catalunha – veja-se o caso Palau ou Jordi Pujol. Muito menos lhes interessou ouvir sobre teoria de redistribuição de capitais entre regiões com maior produtividade como estímulo de outras com menos recursos, como sucede em grande parte dos países europeus. Realmente acreditam que a Catalunha poderia ser o caso de sucesso económico sem os investimentos feitos em infraestruturas,  aposta no turismo por parte do governo e comunidade Europeia, ou sem os mais de um milhão de estrangeiros que aqui trabalham, estudam e disfrutam da alta qualidade de vida da região, com todos os seus direitos e deveres. Em boa verdade o turismo somente representa 12% da economia Catalã, enquanto o sector industrial cerca de 45%. Neles se incluem o sector automóvel (14%) ou farmacêutico (7%) com produção de empresas como a Nissan, SEAT (Grupo Volkswagen) ou Boehringer Ingelheim. Muitos acreditam que tendo a desejada independência, estas empresas se manterão em solo Catalão.

Uma outra parte de independentistas refere-se ao seu desejo como “um sentimento”. Guardam rancor e raiva sem argumentos. É este “sentimento” que me causa curiosidade – e medo.

O que leva crianças e maiores a desejar autonomia, gritar palavras de ordem e no extremo queimar carros e atacar as forças policiais?

De um ponto de vista externo é totalmente ilógico, mas vejamos um pouco de história.

Até 1975 a Catalunha esteve sob repressão de uma ditadura que tentou fazer desaparecer o idioma e tradições da região. A geração de jovens de hoje são netos que cresceram com histórias sobre o fascismo. Os erros do passado deveriam servir para nos ensinar sobre os perigos do extremismo, como fez a Alemanha no seu programa escolar pós segunda guerra mundial. Contudo algo diferente se passou aqui nos anos 90. Durante a era Aznar, por questões de apoio político, Jordi Pujol teve liberdade para criar uma estratégia para a Catalunha chamada “Plan 2000” – Uma estratégia a trinta anos que englobava um impulso à identidade catalã. A mesma passava por fomentar o idioma e cultura através de financiamento de Jornais nacionalistas como o “Avui”, canais de Televisão (Como a TV3), filmes, jogos, edição de livros que apoiassem a causa catalã, passando por pontos chave como incluir nacionalistas em postos governamentais chave, eleger professores com ideais nacionalistas, reitores de universidades entre muitos outros pontos para leitura posterior.

O objectivo final era simples: Criar um “eles” e um “nós” — usando falsas verdades se necessário até criar um sentimento de pertença. O resultado foi alcançado. Os principais agentes violentos deste protesto são produto dos 30 anos do “Plan 2000”.

O governo Espanhol foi incapaz de gerir a situação de forma competente. Através de argumentos que remetem apenas à constituição, leis e força, não conseguiu fazer mais que por lenha na fogueira.

Estamos numa situação delicada, em que qualquer atitude crítica contribui para a raiva e sentimento de vitimização, em que quem discorda do direito à independência é acusado de ser fascista.

A única solução será alcançada quando os catalães perceberem que todos ganham se estiverem unidos. Que a Catalunha será sempre mais forte por ser parte de Espanha e da União europeia. Que sempre se respeitará a cultura catalã, a liberdade de expressão e que a diversidade contribui para o crescimento sustentado de uma nação.

Mas o governo espanhol comete erro atrás de erro e não compreende que a questão não se vai resolver por penas de prisão elevadas.

A Catalunha tem tudo o que se possa desejar. Boas infraestruturas, oportunidades de trabalho, hospitais, escolas, clima, um aeroporto bem conectado, segurança, mar, montanha…

Claro que há problemas, sendo os maiores o turismo massificado causando alugueres altos, pequenos roubos ou venda ambulante descontrolada — mas na Big Picture pouco mais se poderia pedir de um lugar para viver.

Grita-se liberdade quando nunca fomos tão livres para expressar uma opinião e os que estão presos pouco mais fizeram que ludibriar esta geração. Argumentar que no passado a Catalunha foi melhor, mais desenvolvida e democrática é uma falácia. Depois de duas guerras mundiais e uma guerra civil em pouco mais de cem anos, percebemos que a humanidade tem a memória muito curta. Os recentes confrontos vão inevitavelmente impactar na região no longo prazo, não pelos danos materiais ou físicos, mas pela forma que a palavra Barcelona ecoará nos ouvidos de quem apenas lê a superfície mais sensacionalista do problema.