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A época não é a melhor para falar de casos políticos complexos que podem ter consequências directa ou indirectas para Portugal. Dito isso, o caso da Catalunha impõe-se por múltiplas razões. A primeira é a quantidade de inverdades produzidas pelos «media» portugueses devido a obsessões ideológicas e a fantasmas anti-iberistas que não há maneira de desaparecerem. O exemplo mais recente de «fake news» é o título da capa do «Público» de dia 22, imediatamente a seguir às eleições parlamentares catalãs de quinta-feira passada.

Aí se escreve: «Cidadãos [refere-se ao partido Ciutadans que ganhou as ditas eleições] não evitam maioria favorável à separação da Espanha». Há mais do que uma falsa verdade no título. Primeiro, a única maioria que saíu das eleições terá sido a dos três partidos secessionistas, os quais alcançaram em conjunto dois deputados mais do que os 68 exigidos para uma maioria parlamentar. Porém, daqui até se formar o próximo governo regional da Catalunha, muita água vai passar debaixo das pontes.

Em segundo lugar, essa maioria parlamentar não corresponde sequer a metade dos eleitores inscritos (46%), dado que os três partidos do bloco separatista beneficiaram, sobretudo o mais votado (Juntos pela Catalunha), da vantagem concedida pelo sistema eleitoral às zonas menos urbanizadas, para não dizer mais tradicionais. Basta ver quantos votos foram necessários para eleger os deputados do partido conservador que tem governado a Catalunha desde a implantação da democracia e, sobretudo, a enorme desigualdade entre o número de votantes necessários para eleger um deputado nas províncias de Lleida (12.770) e na de Barcelona (36.392).

Finalmente, esta eleição não tinha nem podia ter, constitucionalmente, o objecto de votar a separação ou não da Catalunha. Desde logo, isso não cabe ao parlamento regional catalão, como não compete aos parlamentos regionais dos Açores e da Madeira decretar a sua eventual separação de Portugal. Se e quando a Constituição espanhola for revista, coisa que, sendo desejável, não é para amanhã, será normal que a decisão de uma eventual separação exija qualquer coisa como dois terços dos eleitores inscritos da região em causa. E neste último caso, como aliás já sugeri, o governo central de Espanha, seja ele de que partido for, deveria ser o primeiro a apoiar a permanência da Catalunha na União Europeia.

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Estamos, porém, muito longe disso. Já se percebeu, entretanto, que a guerrilha urbana desencadeada pelos separatistas, com os efeitos conhecidos de deserção das principais firmas sediadas na Catalunha e quebra económica, fará perder mais votos a favor da separação do que ganhá-los, sobretudo na metrópole de Barcelona. Entretanto, todos os observadores atentos já perceberam duas coisas. Por um lado, o primeiro-ministro Rajoy e o PP não têm vontade de ceder aos desejos emancipatórios de metade dos catalães, pretendendo varrê-los para debaixo do tapete. É de imaginar, contudo, que nem a prisão e a condenação dos líderes secessionistas consigam calá-los, o que fará o PP perder mais votos do conjunto do eleitorado espanhol, como se viu aliás nas eleições catalãs, do que ganhar junto dos eleitores conservadores.

Por outro lado, já se percebeu que as coisas não poderão continuar como até aqui: nem para o governo central nem para um governo secessionista. Ora, no artigo citado da jornalista do «Público», Sofia Lorena, que tem coberto a crise catalã desde o início, percebe-se que ela acredita que se trata, simplisticamente, de um conflito entre a direita e a esquerda. Manifesta-se isso quando designa abusivamente o partido vencedor das eleições catalãs de ser de «direita»! Ora, Ciutadans nasceu na Catalunha para combater o separatismo mas nunca se apresentou como sendo de «direita» e tem feito um bom papel no parlamento de Madrid, onde combateu sem parar a corrupção larvar no PP (e no PSOE)… Se «Ciutadans» é de «direita», o que pensa a jornalista que é o partido de Puigdemont (JpC), que vem da «Convergencia» de Artur Más e Jordi Pujol?

Ora, nunca se tratou de um choque entre «direita» e «esquerda». Basta atentar na posição neutra tomada pela marca local de «Podemos», para não falar da posição anti-separatista dos socialistas catalães em comparação com os «esquerdistas encartados» da CUP, promotores da guerrilha urbana e cujo objectivo, mais do que a independência da Catalunha, é a destruição da UE, como sucede aliás com os dois partidos de «esquerda» que apoiam o governo do PS…

A única alternativa às linhas contrárias do legalismo e da ilegalidade está numa iniciativa parlamentar em Madrid a promover pelo Ciudadanos, o PSOE e o próprio Podemos se quiser sair da falsa dicotomia esquerda-direita, bem como as outras forças partidárias, no sentido de uma revisão profunda da Constituição espanhola de 1978 com vista a aprofundar o federalismo já parcialmente em vigor e a abrir a possibilidade de abandonar a federação espanhola no caso de existir, em alguma região, uma maioria qualificada (2/3) a favor da separação. Nem que seja fazendo cair o governo Rajoy! Tal constituição seria referendada pelo conjunto da população de Espanha, como foi a actual. Se e quando lá se chegasse, ver-se-ia!