Sou médica, uma jovem com 11 anos de experiência clínica, carregados de horas mal dormidas, abrir de olhos obrigatório para manter a minha actividade assistencial e a estudar continuamente. E, igualmente, a fingir desde cedo uma cegueira e surdez a políticas associadas à saúde, que atingiam a minha classe profissional a todo o momento, de modo manter a minha sanidade mental ao longo da vida. Gosto de reflectir e numa fase de Coronavirus e pandemia mundial decretada, imagino o tríptico de Bosch, com a sua visão da humanidade carregada de luxúria, pecado, criações diabólicas mas ainda uma possível salvação da humildade! Uma possível! Pois bem, cá estamos nós na Era Covid-19: a possível salvação da humanidade: solidariedade e altruísmo! No entanto para sermos entendedores do presente deveremos sempre conhecer o passado, como ensina a história da humanidade.

Era pré Covid-19: muito pragmática e vivida, real a todos os segundos. Recordo-me bem de ouvir o mestre de obras lá de casa dizer-me “ a Doutora parece russa, como aqueles médicos que deixaram panos dentro do doente operado“, nada mais me restou que despedi-lo mas vi-me grega para arranjar outro mestre de obras, pois nos últimos anos têm um trabalho que mais parece digno de prémio Nobel; recebo um telefonema da mãe, após a sua caminhada vespertina que, com voz incrédula questiona: “filha a minha tensão arterial é alta? A filha da minha amiga disse que estava um pouco, e eu não sei porque tu não me explicas nada! “, respondo sempre o mesmo: “ Sim mãe, tu só tens médicos em casa, mas os outros é que sabem! Um beijo” Após uns dias vim a saber que a tal filha era professora do 1º ciclo; e, quando estou num mesa de convívio e todos opinam sobre medicina, excepto os médicos presentes no convívio, sinto-me incrível a encarnar a personagem principal do filme de Woody Allen, sendo uma ouvinte a 100% e penso que o mundo continua cheio de pessoas estúpidas com certezas absolutas e pessoas inteligentes que estão carregados de dúvidas, mas a conversa continua como se não estivessem médicos presentes; e não escapam as agressões aos médicos, em número crescente que recentemente vieram a público, com comentários nas redes sociais: ah e tal, os médicos têm a mania. Noutro dia o médico foi tão brusco a atender-me que também merecia uma valente…e paguei 50€ por 10 minutos e quase nem me viu (se calhar quem fez este comentário foi aquela senhora que escreveu no seu iPhone última gama enquanto aguardava o arranjo do cabelo de 150€ ou aquele empresário de ascensão financeira de última horinha com os seu fio de ouro ao pescoço e ténis da LV de 600€).

E venha o presente, a Era Covid-19: Rugidos por todos os cantos do país: Viva aos médicos, afinal não são os jogadores de futebol os nossos heróis mas são os médicos, Viva! Aplausos por uns minutos aos médicos nas ruas de Portugal, união portugueses e força para os médicos! Portugueses unidos para produzir EPI em falta, fornecer refeições gratuitas aos hospitais, criarem cartoons a enaltecer a profissão do médico (aquela ilustração do médico a segurar o mundo nas suas costas: achei tão divina que meus olhos quase lacrimejaram mas no segundo a seguir pensei que o artista ou era médico ou estava num momento orgásmico do seu dia!)

E, quando parecia que a salvação da Humanidade estava prestes a emergir como Bosch tentou transmitir, quando valores como a solidariedade e respeito estavam em ascensão na sua melhor essência como o perfume doce e penetrante do jasmin-da-noite que se liberta ao entardecer e, nos faz sentir em paz e mais aconchegados pela sociedade com amor e consideração… começam os portugueses com exclamações: ah e tal, mas se não fossem os lixeiros, os operadores de supermercado, os padeiros, etc. não conseguíamos viver, sem eles nada disto era possível. São também os nossos heróis!

Ah e tal, vou disponibilizar as minhas casas para médicos que estejam a precisar da linha da frente (e realço: médicos! Pois, cá entre nós, o alojamento local não está a dar rendimento e, tipo chico esperto, ainda acham que se for médico pode sempre “exigir” um ventilador em caso de necessidade argumentando que cedem casas a médicos, ajudando-os a não infectar a família. Pois se assim não fosse, cediam a casa a enfermeiros ou auxiliares de acção médica…mas não! Pois o médico tem a decisão final)… E, vem a notícia nos media, partilhada nas redes sociais, de um médico infectado internado nos cuidados intensivos mas “foi de contacto com familiares”, ah que sacana de médico! (pena o médico ter sido um dos que está na linha da frente! Isso não interessa! Interessa que foi com familiares!). Relembro-me que a EDP dá 20% de desconto aos médicos, mas que pena só aos que estão no SNS. Sim porque os médicos do privado estão todos em casa de luz apagada, não têm doentes para consultar nem estão muitos, em pro bono, a exercer a sua actividade em prol da saúde dos portugueses, a lutar contra este vírus. Maluquice a minha, achar que eram 20% de desconto de solidariedade para os ditos heróis! Mais ainda, li num artigo que os médicos ganhavam 75€/hora nesta altura de pandemia… sacanas mais uma vez! “Reclamam e ganham imenso”, indignam-se alguns (talvez o autor do artigo ganhe tal montante!), quanto ao médico ainda está para aparecer a Virgem Maria para que tal fenómeno se realize.

Infelizmente não acaba por aqui, após ser criada uma linha de apoio médico gratuita à população no Facebook, ainda há portugueses que se dignam a ofender os médicos que gentilmente estão dispostos a responder a dúvidas da população, apesar de estarem exaustos do dia de trabalho e só apetecer abraçar quem amam ou simplesmente fechar os olhos e adormecer. Ah como me esquecia, e aqueles portugueses que andam a tentar enganar o médico para pedir mais uma prescrição do teste Covid-19, quem, quem? Ah, os portugueses que apesar de já terem feito no dia anterior noutra instituição tentam fazer de novo, fazendo com que quem precise realmente não tenha teste disponível na devida altura?! Hmm!

Sempre que ouço a palavra solidariedade penso nos sofistas a pregar aos pretendentes intelectuais e Sócrates, lá no fundo, a observar e pensar: mas que dizeres enganadores são aqueles…em troco de umas moedas!

E surgirá a Era pós Covid-19:

– Ah esses médicos, nós é que demos gratuitamente os EPI e agora querem aumento salarial e, nós que ficamos no desemprego, como é?

– Ah, mas o agora o meu médico não me atende o telemóvel nem responde a mensagens, preciso de saber se posso tomar antibiótico ou não! Pelo Facebook respondia logo, agora já tem lista de espera!

– Ah sim, sim mas a médica tem uma mania e é tão novinha que não percebe nada.

– Ah não vizinha, não se preocupe tome brufen e vá ao osteopata que fica logo boa.

– Como, uma consulta 80€? Nem pensar! Prefiro ficar na lista de espera 3 meses ou então vou às urgências, invento uns sintomas e sou logo vista (enquanto olha para as unhas alongadas de gel — sim aquelas que para manutenção anual 80€ não devem ser suficientes e aquelas que deveriam ser proibidas pois de higiene das mãos de nada têm! Mas afinal lavar as mãos, não era só na fase Covid-19?)

– Os médicos querem aumento salarial? Subsídio de risco? São doidos, Portugal não tem dinheiro, o desemprego aumentou, empresas faliram e queda, queda e queda!

Porque, meus caros, enquanto os médicos trabalhavam e são todos, todas as especialidades na sua devida competência para o vosso bem-estar, a vós só vos foi pedido para ficarem em casa. Uma mera quarentena que todos os médicos fizeram, vezes sem conta, ao longo de 6 a 12 anos de formação médica… perderam o campeonato do mundo de futebol, aquele concerto, aquela série, o primeiro sorriso do filho, o adeus do avô, as idas à discoteca e aquele Verão maravilhoso, porque estavam a estudar e estudar e estudar ainda mais. E são estes médicos que todos vós deveriam louvar agora e sempre, pois é a única profissão do mundo que vos consegue manter a vida em caso de doença e mais nenhuma profissão pode fazer o trabalho de um médico! Nunca se esqueçam disso! Em caso de pandemia, como agora, um médico só consegue substituir um médico e por isso, sim, são os vossos heróis, desde os colegas de saúde pública que andam a controlar a população, a todos os médicos de família que estão todos os dias a consultar-vos horas após horas, aos colegas dos cuidados de saúde secundários que fazem de tudo para vos manter vivos, fazem tudo para vos salvar ao mesmo tempo que estudam e se actualizam dia após dia!

Nesta Era actual, meus caros, já o nosso cineasta Manoel Oliveira disse outrora: “É mais importante a saúde do que o dinheiro. Uma pessoa com saúde pode dormir na soleira de uma porta. E um ricalhaço doente pode não ter posição na cama”.

Agora é a minha vez, como médica orgulhosa e defensora da minha classe rugir: eu consigo ser lixeira, padeira, operadora de caixa, servente, polícia, bombeira, e até política de cabaret. Mas nenhuma destas profissões nem outras mais conseguem ser o que eu sou agora e já, pronta a agir, ser médica.

Não batam mais palmas de quem não sabe quando acaba o primeiro acto na Ópera, não ofendam mais, reflictam nas palavras de Kennedy: Ask not what your country can do for you; ask what you can do for your country. Nós médicos há muito que reflectimos: estamos a cuidar de todos vós, prevenindo e curando a doença, pois é a nossa profissão que tanto honramos todos os dias mas que, muitas vezes, nos desmotiva por vossa causa! Vossa, meu povo português, citando a loucura de Erasmo de Roterdão: “não sei que mais me espanta nos mortais, se a ingratidão, se a sua indiferença”.