Sobre o valor do trabalho já me pronunciei com clareza neste e noutros espaços, tal como me manifestei, com clareza, sobre o posicionamento que entendo que o Estado deveria adoptar em relação ao mesmo. Mas a verdade é que, desde os tempos da troika e apesar do “fim” da austeridade, estamos completamente congelados.

Estamos congelados – ironia das ironias – em tempos de descongelamento geral das carreiras públicas, enquanto a carga fiscal que esmaga e desincentiva o trabalho, que penaliza quem trabalhar mais e quem procurar exceder-se no esforço e no denodo profissionais não foi aliviada nem existem indícios de que o possa ser um dia.

É notável o contributo português, encabeçado por Mário Centeno, para o arrefecimento global, que descongela a direito – agora são 350.000 trabalhadores afortunados (que Centeno considerou serem dignos de atenção e piedade, derramando sobre eles o pó mágico descongelante da sua cornucópia generosa que desbloqueia progressões de carreiras e repristina a esperança numa vida melhor), mas vai aprofundando o arrefecimento. Com este importante contributo, até acredito que Centeno quisesse ter estado ao lado de Obama a defender o seu método implacável para congelar economias e todos os males que para ele decorrem do progresso económico privado.

Centeno descongela os “funcionários” públicos (cerca de 70.000 são trabalhadores de empresas públicas) que merecem deste Governo a comiseração da justiça, retomando os percursos interrompidos pela bancarrota e pelas consequências drásticas e duradouras da gestão incompetente e irresponsável da coisa pública, mas congela o que não devia.

De mansinho, vai congelando impostos, impostos, mais impostos. Congela desenvolvimento e investimento, congela as hipóteses de nos safarmos sem outra troika, congela Portugal.

Se os “funcionários” privados têm que sofrer o anátema inapelável de suportar eternamente os demandos dos desgovernos e das chamadas para o INEM financeiro do mundo — cada vez mais por força da hegemonia de uma “política patriótica e de esquerda” que diaboliza a pura existência dos privados –, confesso uma singela curiosidade intelectual acerca da entrada directa de PCP e Bloco no Conselho de Ministros, para ver qual será o novo mínimo histórico que atingiremos – as pastas do Trabalho e da Economia parecem-me ser as de maior potencial patriótico e de esquerda, com o seu acervo de nacionalizações, gestões colectivas e solidariedades internacionais isolacionistas.

Enquanto meio milhão de trabalhadores são discriminados positivamente em 2018, os privados estão claramente do lado errado da História, ao serem excluídos de qualquer objectivo “possível” do Ministro das Finanças do seu país. Ignorados. Desconsiderados. Congelados.

É este o arrefecimento global luso: sob a aparência dos descongelamentos generosos, prossegue a estratégia do imobilismo congelante. É que a silly season só é silly para alguns – para os que estão do lado certo é verdadeiramente a smart season.

Veremos então se o balanço será positivo quando Portugal se encontrar, outra vez, congelado no espaço e no tempo, carente e dependente de ajuda.

É para aí que caminhamos, com júbilo silly, rumo a temperaturas siberianas.