Declarar que «Somos todos Charlie» é politicamente correcto mas pouco convincente e totalmente insuficiente para dar conta do que se está a passar no mundo e não só em França. Não se trata apenas de um atentado inaudito contra a liberdade de expressão e contra a comunicação social tal como a conhecemos em democracia. Se fosse apenas isso, o voto pio dos media e dos manifestantes que saíram à rua um pouco por toda a Europa seria talvez suficiente, mas não é.

Em vez disso, é cada vez mais difícil escapar à terrível sensação de que estamos a assistir àquilo a que, já antes do atentado do 11 de Setembro de 2001, alguns chamavam um “choque de civilizações” e a que outros, mais tarde, começaram a chamar com disfarçado júbilo uma «terceira guerra mundial» destinada a ocupar o espaço criado pelo fim da “guerra fria” que sucedera à queda do muro de Berlim. Como Rui Ramos aqui lembrou a propósito do miserável atentado de quinta-feira passada em que assassinaram um dos meus heróis de Maio de ’68, Wolinski, e os seus companheiros de Charlie-Hebdo, foi o conservador norte-americano Samuel Huntington quem cunhou a expressão “choque de civilizações” (Foreign Affairs, 1993) a fim de designar “o próximo padrão de conflito” que estava a tomar o lugar da velha “guerra fria” entre – para simplificar – o comunismo e a democracia.

Ora, a verdade é que isso tem vindo a confirmar-se ano após ano, aceleradamente desde o 11 de Setembro, tendo como pano de fundo a densificação da globalização iniciada nos primórdios da década de Setenta do século passado e a correspondente emergência de potências económicas e políticas de tipo novo como os BRICs e os seus associados, nomeadamente no mundo islâmico (Irão, Turquia). Não é ainda a “terceira guerra mundial” anunciada para breve (Boaventura Sousa Santos, Visão, 11 de dezembro), mas é certamente um terreno de batalha aberto em permanência que ganha novos contornos todos os dias.

Nesse terreno, as organizações terroristas fazem as vezes de exércitos que nuns casos não existem e noutros fingem não existir (China e Rússia em particular), até porque as fronteiras são incertas, mudando a cada passo. O ponto mais fixo desta fronteira móvel entre civilizações é, efectivamente, o Islão, desde Marrocos até ao Afeganistão. Não só pelas razões culturais que se podem ler, a contrario, no Orientalismo (1978) que Edward Saïd escreveu contra aquilo que achava ser a «visão ocidental» do Médio Oriente, mas também pela efervescência religiosa e, por trás disso, o petróleo suficiente para financiar tudo o que se quiser.

Dito isso, o clamoroso insucesso da “Primavera Árabe” é a prova que não está à vista qualquer democratização dos territórios politicamente subjugados pelas diferentes crenças islâmicas. E a Turquia prova o mesmo ao fazer ao transformar as eleições em virtual ditadura. Há criaturas bem-intencionadas que dirão que, no próprio ocidente cristão, ainda há pouco nos matávamos por motivos teológicos, para não falar dos totalitarismos do século XX. É verdade com certeza. Desde a queda do muro de Berlim, todavia, já não é seguramente por aí que passa a fronteira dos grandes conflitos internacionais.

Muito poucos terão reparado nisso mas não foi à toa que o líder do PCP, no discurso de encerramento da última Festa do Avante, ao saudar “os povos e as forças progressistas que estão no centro dos grandes combates do nosso tempo”, citou a Palestina em lugar do maior destaque. E havia apenas outros três. A escolha diz muito: Venezuela, Ucrânia (pró-russa entenda-se) e Cuba, que entretanto irá possivelmente sair da lista; nem menção da China.
Inversamente, diante da Palestina está Israel, o que faz deste, quer se queira ou não, a primeira fronteira do “choque

civilizacional”. Uma das funções internacionais da Palestina tem sido, com efeito, empurrar a opinião pública e os próprios governos de Israel para a “direita”, de forma a isolar os USA e os seus aliados da opinião pública nas democracias europeias, a qual se tornou basicamente pacifista, rendendo-se à tolerância civilizacional e ao alegado “multiculturalismo”, ao mesmo tempo que tornava impossível as intervenções que a NATO ou o que dela resta poderia ter na Síria e em situações transnacionais como o infame “Estado islâmico”. Paradoxalmente ou talvez não, crescem o xenofobismo e as extremas-direitas na Europa.

Não querer juntar estes fios e não ver que está em movimento uma frente de combate no mundo islâmico contra aquilo que se designava antigamente por “imperialismo” é cegueira. E se porventura sou eu que me engano, ainda bem; é melhor prevenir que remediar. Agora, minimizar o facto de três ou quatros franceses de origem norte-africana terem feito morrer a tiro mais de 20 pessoas em menos de 48 horas, colocando mais uma vez em estado de alarme um dos principais países ocidentais, isso seria muita ingenuidade. O facto de os próprios terroristas se terem lançado contra as balas da polícia só garante que por boca deles nada mais se saberá acerca de quem eram e o que representam para as suas comunidades de origem. As ondas do “choque civilizacional” não cessarão de nos abalar.