Que papel têm as redes sociais no desenvolvimento da cidadania, nas campanhas eleitorais, no envolvimento dos jovens na política e na e-democracia?

Nesta fase que o mundo está a viver é praticamente impossível ficar indiferente aos acontecimentos que marcam a agenda mediática.

Alterações climáticas, pobreza e desemprego, instabilidade política, entre outros, são assuntos que diariamente invadem as nossas casas.

Há mais de uma década, as tecnologias da informação e de comunicação (TIC) mudaram dramaticamente o mundo. Os novos media e as tecnologias alteraram a interacção interpessoal, os padrões de comunicação e as discussões sociais e políticas.

Sim, nos últimos anos avançámos sobremaneira tecnologicamente, mas perante o cenário actual, não deveríamos questionar/reflectir sobre que tipo de sociedade e de cidadania temos hoje em dia? Na minha opinião, é inevitável…

O que presenciamos é o facto da cidadania se exercer, sobretudo, nos espaços ‘livres’ de discussão que as redes sociais e os fóruns digitais proporcionam. E que tipo de comentários aí vemos? Comentários plenos de emoção, muitas vezes perpassados pelo ódio, sem aprofundamento gerado pela reflexão ou qualquer moderação.

A sociedade que vejo, muitas vezes, retratada nestas redes digitais é, na minha opinião, assustadora. Se me pedissem para a resumir, diria simplesmente: falta-lhe humanidade…

A história trouxe-nos a lição de que os fundamentalismos nunca levaram os seus objetivos a bom porto. Não obstante, têm vindo a conquistar cada vez mais terreno nas representações políticas, por todo o globo.

Os desafios que enfrentamos, enquanto sociedade, são vastos e complexos. A própria universidade do futuro será interdisciplinar, com as tradicionais divisões por departamentos a perder terreno a favor da interdisciplinaridade.

Especificamente, no que respeita ao acesso à informação política, e tendo em linha de conta o panorama português em véspera de eleições legislativas, a televisão continua a ser o meio privilegiado, logo seguida pelos jornais e pela rádio. No entanto, o Facebook, Twitter e outras redes sociais começam a ganhar espaço e importância, de acordo com uma sondagem do Expresso/SIC que revela que cerca de 29% dos inquiridos assumem consultar com regularidade (“frequentemente” ou “de vez em quando”) estes novos media para acederem a noticiário político.

Vários estudos internacionais confirmam que as redes sociais têm uma influência significativa na aprendizagem social e política dos internautas, especialmente dos mais jovens. Mas será esta cidadania digital (também conhecida como “digitania”) capaz de revitalizar a democracia como a conhecemos, nomeadamente no que concerne às formas tradicionais de participação política, como o voto nas urnas e a afiliação partidária, por exemplo?

Está provado que o desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação melhora a partilha e a divulgação política. Os cidadãos têm agora acesso a formas inovadoras de expressão de opinião e co-criação de conteúdo político. Nesta “e-polis”, os cidadãos têm aprendido a tirar proveito do potencial das ferramentas interactivas, multimédia, instrumentos baseados em rede, para acessar, melhorar e controlar o processo de tomada de decisão.

Por outro lado, há muito que as campanhas eleitorais dos vários partidos políticos têm vindo a privilegiar as redes sociais, como canais de comunicação com os seus públicos. Portugal não é excepção relativamente a esta tendência, com os vários partidos da cena nacional, activamente divulgando os seus programas políticos nestes canais digitais (Facebook, Instagram, Youtube, Twitter, Whats app) e envolvendo, desta forma, os seus públicos.

O PAN é o partido com mais seguidores no Facebook, com mais de 160 mil gostos, seguido pelo PSD, perto dos 150 mil. No Twitter é o PSD o partido mais popular, com mais de 35 mil seguidores, seguindo-se o PS com 32,3 mil.

Se é verdade que estes meios vieram trazer visibilidade mediática a pequenos partidos que, de outra forma, não marcariam presença na agenda mediática tradicional (a chamada tese da equalização), os grandes partidos souberam rapidamente adaptar-se a esta nova realidade, montando uma verdadeira máquina que sabe tirar partido das potencialidades destas plataformas digitais.

Acresce ainda a existência de websites e apps, com o propósito de informar os internautas das propostas de cada partido (ex: “meuParlamento.pt”; “Legislativas 2019”; “Política para Todos”; “Olimpíadas do Carbono”).

Todavia, esta espécie de “democracia electrónica”, bem como o nível de participação online dos cidadãos, muitas vezes se revelou decepcionante, principalmente devido a três aspectos fundamentais: a falta de adaptação das formas tradicionais de formulação de políticas governamentais; a organização política baseada em estruturas centralizadas e hierárquicas; e as formas de comunicação “muitos para muitos” que sobrecarregam o processo de tomada de decisão (a este respeito vd. o excelente artigo de Sónia Pedro Sebastião (2015), “Digitania© or the disillusion with a digital citizenship”.

Por seu turno, o voto online (“i-voting”) tem vindo a ser testado internacionalmente em vários estudos, com resultados muito interessantes na mobilização de novos cidadãos, que se encontravam afastados do processo tradicional de participação política nas urnas.

Sim, novas formas de democratização de governos e de participação política através da tecnologia e da internet são necessárias, no seguimento da implementação de uma verdadeira e-democracia. Não apenas de uma forma incremental, mas numa perspectiva fundamental de estrutura.

A pergunta que, necessariamente, se coloca é a seguinte: quanto tempo mais falta para chegarmos lá?