É ainda cedo para fazer balanços profundos sobre a tentativa de golpe militar gorada na Turquia, mas não será arriscado afirmar que muito irá mudar na política interna e externa turcas.

As mudanças começaram ainda durante a tentativa de golpe militar. As novas tecnologias mostraram que podem contribuir para a vitória daqueles que as sabem utilizar e, não obstante o Presidente Erdogan não ser muito amigo da transparência da Internet e das redes sociais, foi através delas que conseguiu chamar os civis turcos para a rua.

Este episódio fez-me recordar a tentativa de golpe para derrubar Mikhail Gorbatchov do poder na URSS em 19 de Agosto de 1991. Os golpistas comunistas esqueceram-se de um dos importantes conselhos do seu ideólogo Vladimir Lénine, que dizia que, em caso de revolução, uma das primeiras coisas que se deve fazer é cortar o telefone e o telégrafo.

Mobilizados pelo Presidente Erdogan, milhares de pessoas saíram para as ruas de Ancara e Istambul e conseguiram paralisar a acção dos soldados turcos. A partir desse momento, os golpistas tinham duas opções: ou tentar vencer provocando um gigantesco banho de sangue, ou acabar por ceder à pressão dos civis e renderem-se.

E aqui volto a recordar 19 de Agosto de 1991 na URSS, quando os militares que tinham entrado em Moscovo não ousaram abrir fogo contra os milhares de manifestantes que se iam juntando. Experiência oposta foi a carnificina feita pelas forças de segurança chinesas na Praça de Tianamen em 1989.

No caso da Turquia, tendo por base o acompanhamento dos acontecimentos par a par, fiquei convencido de que muitos dos civis que saíram para a rua não o fizeram para apoiar Erdogan, mas para impedir a concretização dos projectos dos golpistas. É de salientar também que nenhuma das forças políticas influentes turcas apoiaram os revoltosos. Por isso, não apresentaria como certa a previsão de que o dirigente turco tem caminho aberto para a “islamização” do país.

É também de salientar que uma das principais causas da falha do golpe se deveu ao facto de as Forças Armadas da Turquia se terem apresentado desunidas. Por isso, é expectável que o Presidente Erdogan aproveite a oportunidade para fazer uma purga no corpo castrense e retirar-lhe muita da influência de que sempre gozou no país.

Quanto à política externa, Erdogan sairá reforçado e mais reforçado ficará se conseguir convocar e vencer um referendo que altere a Constituição e lhe dê mais poderes. Isso dar-lhe-á um peso maior no diálogo com a União Europeia e a Rússia.

Em relação a esta última, penso que o processo de normalização das relações diplomáticas e económicas irá ganhar força, pois Serguei Lavrov, ministro russo dos Negócios Estrangeiros, foi dos primeiros políticos estrangeiros a condenar o emprego de “formas inconstitucionais” para resolver os problemas internos, enquanto que os Estados Unidos e os membros da União Europeia demoraram a reagir, esperando para ver para onde caía o prato da balança.

Aleksei Puchkov, presidente da Comissão de Relações Internacionais da Câmara Baixa do Parlamento Russo, afirmou: “o facto de Erdogan continuar no poder significa, o mais provável, que os acordos conseguidos com a Rússia se irão manter… E penso que irá continuar a política de correcções que Erdogan começou a fazer gradualmente na política externa para normalizar as relações com a Rússia e com os países vizinhos com quem a Turquia tem relações mais complicadas”.

Agora, o importante é que a situação política e social na Turquia volte à normalidade possível, pois a desestabilização deste país irá agravar a solução dos problemas da Síria e do Iraque e trazer novas fortes dores de cabeça à Europa, que aqui incluo também a Rússia.