Seguimos, em alguma medida, enclausurados.
Mas ainda há um céu azul para admirar pela janela.

Perdemos muitas das nossas tardes de sol.
Mas ganhámos muitas das nossas horas de casa.

Não pudemos abraçar nossos amores como gostaríamos.
Mas ainda há amores grandes o bastante para se sentir falta deles.

Passamos muitos dias presos ao sofá.
Mas o consumo de livros aumentou.

Foram muitas horas na cozinha.
Mas inúmeras receitas novas surgiram.

As crianças nos deixaram loucos.
Mas nunca usufruímos tanto da companhia delas.

O nosso trabalho foi completamente descaracterizado.
Mas nunca trabalhámos tanto a nossa capacidade de adaptação.

Andamos pelas ruas com algum medo.
Mas aprendemos a ser cuidadosos como nunca fomos antes.

Temos vergonha de tossir.
Mas nunca nos preocupámos tanto com os outros.

Temos vergonha de espirrar.
Mas nunca tivemos tanta atenção com aqueles que nos cercam.

Passámos a viver razoavelmente desconfiados.
Mas nunca estivemos tão atentos.

Morremos de medo de perder nossos pais, nossos avós.
Mas nunca tínhamos sido tão confrontados com o quanto os queremos vivos.

Amores se desfizeram.
Mas surgiram novos rostos, novos sorrisos, novos planos.

Mapeamos de forma ansiosa todas as nossas condições que nos colocam em risco.
Mas nunca tínhamos repensado tanto a questão dos cigarros e de outros vícios.

Estamos cheios de dúvidas sobre o futuro.
Mas nunca estivemos tão certos da nossa insignificância.

Não comemoramos nossos aniversários.
Mas nunca fizemos planos tão bons para os próximos.

Desenvolvemos problemas físicos que não tínhamos.
Mas nunca prestámos tanta atenção nos nossos corpos.

Sentimos falta das ruas.
Mas nunca conhecemos tão bem as nossas casas.

Nos angustiamos pelos que não podem estar confinados.
Mas aprendemos a valorizar mais os nossos privilégios.

Escondemos nossos rostos atrás de máscaras.
Mas nunca tínhamos prestado tanta atenção nos olhos das pessoas.

Estamos com medo do que está por vir.
Mas nunca estivemos tão certos do valor das pequenas coisas da vida.