Incêndios

Coitado do eucalipto…

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Miguel Sousa Tavares defende há anos que o eucalipto é o culpado de tudo. Também é contra as autoestradas, os hotéis e as hordas de turistas. Eu também gostava de ter o Algarve só para mim, mas não dá

Todos os anos, na época dos incêndios, lá vem a acusação costumeira: a culpa é do eucalipto.

Para a nossa esquerda radical – que gosta de vender a ideia que a ecologia é algo ideológico, e da sua pertença – o eucalipto é um tipo de emanação do mal. Para outros esquerdistas, não menos alucinados, a plantação do eucalipto é um cancro que deriva dos demoníacos interesses económicos. Nos jornais e na televisão, Miguel Sousa Tavares defende há anos que o eucalipto é o culpado disto tudo. Bom, lá chegaremos, mas convém não esquecer que Sousa Tavares também acompanha a sua sanha contra o eucalipto, com a sanha contra o turismo, as autoestradas, os hotéis, as hordas de turistas, etc. Eu também gostava de ter o Algarve só para mim, mas não dá.

Mas voltemos ao eucalipto (essa árvore pela qual não tenho especial apreço histórico, estético ou outro). Não sou agrónomo, bombeiro ou madeireiro. Também não sou acionista de nenhuma celulose. No entanto, acho estranho que tudo se resuma ao pobre do eucalipto. Vejamos. Não são as celuloses proprietárias de enormes extensões de floresta? Não são essas explorações florestais só de eucalipto? Então porque não ardem? Sim, não tenho conhecimento de grandes incêndios nas plantações a cargo das celuloses! Estão mais bem guardadas? Melhor cuidadas? Com caminhos para os bombeiros – privados – poderem trabalhar? Será isso, ou outras razões? Algo deve ser. O que não percebo é porque não se copia quem faz bem.

Cá para mim o facto da nossa floresta ter um milhão de proprietários e de vivermos sob um edifício jurídico, construído por gente sem sentido de Estado, levou a que estejamos de mãos e pés atados se quisermos entrar pela floresta adentro e pormos ordem naquilo. Tenha alguém coragem para fazer o necessário – ou seja expropriar – e lá virão milhares de providências cautelares, reportagens de fazer chorar as pedras da calçada, votos disto, recomendações daquilo e uma comissão parlamentar para debater o assunto.

Para o debate político, era de igual forma necessário termos uma esquerda intelectualmente honesta, coisa que, infelizmente, não temos. Para a nossa esquerda a culpa é da Cristas, como se tudo se resumisse aos quatro anos em que alguém teve que ter a coragem de pegar o touro pelos cornos, mas isso são outros quinhentos.

Mas era, de facto, importante saber o seguinte:

  1. Qual o acréscimo, líquido, de área de eucalipto plantada por força das alterações implementadas pelo Governo de Passos.
  2. Quanto desse acréscimo já ardeu.
  3. Por que razão a geringonça, que vai em quase quatro anos de legislatura, não regrediu nessa matéria.
  4. Quantos hectares de eucalipto se plantaram nos anos “gerigonçais”.
  5. Qual a percentagem de eucaliptal ardido, face ao total.

Poderão as respostas não interessar ao discurso miserável da nossa esquerda ecológica?

Talvez agora, depois de Robles, e antes de se descobrir que alguém do Bloco ganha dinheiro a plantar eucaliptos, se possa ter um debate civilizado. Até lá a culpa vai ser do mexilhão, desculpem, do eucalipto.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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