Convencionou-se — não estou certo em qual convenção daquelas em que se convenciona este tipo de convenções — que o silêncio é de ouro. Mas não o silêncio de José Sócrates. No que toca ao silêncio de Sócrates, a coisa é bem diferente. É tanta a dificuldade do ex-primeiro-ministro em permanecer calado, é tão raro tal suceder, que o silêncio de José Sócrates é mais valioso ainda que o próprio ouro. Neste momento, o silêncio do antigo líder do PS transaciona-se a um valor até superior ao da platina. Aliás, por estes dias, o valor do silêncio de Sócrates equipara-se, isso sim, ao valor do chifre de rinoceronte.

O que não deixa de ser curioso do ponto de vista político-zoológico. Por um lado, o silêncio do “animal feroz” é tão precioso quanto a saliência doutro animal que, não sendo tão feroz como, por exemplo, o hipopótamo, é ainda assim menino para varrer meia-dúzia de turistas incautos numa passeata pela savana. Por outro lado, ao passo que o hipopótamo está em vias de extinção, parece não haver maneira do Sócrates desaparecer do mapa.

Como que comprovando que os silêncios de José Sócrates são mais incomuns que o alinhamento de Júpiter e Saturno — para os ínscios da astronomia, tal ocorre a cada duas décadas (e para os ínscios da língua portuguesa, “ínscio” significa ignorante. Também não fazia a mínima ideia, como é óbvio. Fui ver agora mesmo ao dicionário) –, nem mesmo após a decisão instrutória, Sócrates se remeteu a uma prudente quietude. Alguma vez? Nem pensar. Então se as decisões de Ivo Rosa apenas o acusam do despiciendo crime de branqueamento de capitais e do insignificante crime de falsificação de documentos que, juntos, podem valer uns míseros 12 anos de cadeia, o homem ia ficar calado, queres ver? Se calhar também não festejavam histericamente, vocês. Isto para José Sócrates foi muitíssimo superior a uma vitória de Pirro. Isto tratou-se, quanto muito, de um transtorno ao nível dum espirro.

No entanto, o grande vencedor da decisão instrutória de Ivo Rosa foi Carlos Santos Silva. Afinal, Santos Silva entrou nesta fase do processo na condição — algo desprestigiante, convenhamos — de mero testa de ferro e saiu na condição de detentor de um “Voucher Primeiro-Ministro”, no valor de 1.727.398,56 euros. Bem bom. Pelo menos, foi a esta conclusão que Ivo Rosa chegou. Sócrates terá colocado os seus serviços à disposição de Carlos Santos Silva, para que este deles desfrutasse, até perfazer aquele montante. Só não sei é se Santos Silva chegou a usar o seu voucher para que o ex-primeiro-ministro adjudicasse umas obras da Parque Escolar ao Grupo Lena, ou se solicitou antes a José Sócrates uma massagem com pedras quentes.

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A verdade é que Ivo Rosa deixou cair todos os crimes de corrupção de que o Ministério Público acusa José Sócrates. Razão pela qual, em alguma instâncias, Ivo Rosa passou a ser conhecido como “O juiz de defesa de José Sócrates”. Ou como Ivo “Ui, O Que Este Menino Adora O Ex-líder Do Partido Que Tradicionalmente Adopta Como Cor O” Rosa. Noutros fóruns, houve quem aventasse que isto não se tratou de uma decisão instrutória, mas sim de uma decisão nada instrutiva. Mas o que se ouviu mais foram apelos de famílias para quem a ajuda de Ivo Rosa viria mesmo a calhar. De facto, tendo em conta o jeito e rapidez que Ivo Rosa demonstrou para arquivar e limpar crimes, é de suspeitar que desse um estupendo homem-a-dias.

E enquanto Ivo Rosa nos higienizava o lar, podíamos desfrutar da leitura da novel obra de José Sócrates, “Só Agora Começou”. E a mera leitura do título levar-nos-ia a indagar “Irra, mas quando é que esta fantochada acaba, pá?”