Houve uma altura em que os cronistas eram essencialmente jornalistas com uma longa carreira ou “especialistas” com autoridade profissional em certas áreas. Os primeiros davam a sua opinião sobre qualquer assunto, tendo em conta a sua experiência jornalística. Os segundos analisavam sobretudo os domínios onde a sua autoridade profissional era reconhecida.

Esse mundo acabou. Ainda há cronistas que são acima de tudo jornalistas – e há bons exemplos em Portugal – e ainda existem os chamados “especialistas”. Surgiram, no entanto, os comentadores profissionais. Nunca foram nem são jornalistas. Ou seja, não passaram pelas escolas do jornalismo, as redações. Também não há nada no seu currículo profissional ou académico que lhes dê uma autoridade especial. Muitos deles nem sequer têm outra profissão. Comentam a tempo inteiro. E comentam sobre tudo, com uma grande facilidade.

São, de certo modo, a outra face da moeda dos políticos profissionais. Tal como estes nunca fizeram outra coisa senão política, os comentadores profissionais não fazem outra coisa senão comentar. E alguns deles transitam, aparentemente, entre a política e o comentário. E aqui o aparentemente é importante. Quando fazem política, passam a vida a comentar. E quando comentam, fazem sobretudo política.

Pacheco Pereira é um exemplo do comentador profissional. Comenta na televisão, na rádio e escreve semanalmente num jornal e numa revista. Como o próprio admite, nunca foi jornalista e, segundo consta, nunca exerceu qualquer actividade profissional fora da política ou do comentário. Por vezes, apresenta-se como “historiador”, mas será no máximo um autodidacta em História. A comparação entre a obra de verdadeiros historiadores como Maria de Fátima Bonifácio ou de Rui Ramos e os livros de Pacheco Pereira mostram a diferença. O comentador Pacheco Pereira é um resultado da mesma sociedade que produziu políticos profissionais como por exemplo José Sócrates, António José Seguro, ou António Costa, um político profissional, que é igualmente um comentador.

Ao contrário do que se possa julgar não sou contra a existência de comentadores profissionais. Tal como a profissionalização da política, vejo-os como um sinal inevitável dos tempos em que vivemos. E há cada vez mais comentadores profissionais no nosso país. Referi o exemplo de Pacheco Pereira porque é um dos casos com mais sucesso  – só é pena que deixe os seus ódios pessoais prejudicarem a qualidade dos seus comentários.

O que não aceito é que os comentadores profissionais não assumam a sua condição, e apresentem os seus comentários como simplesmente “opinião” ou fruto de uma “autoridade objectiva ou neutral”. Não há nada de objectivo nem de neutral nos seus comentários (e muitas vezes nem sequer há uma opinião). Os comentadores profissionais têm desde logo uma estratégia de “marketing” profissional, o que se entende, tendo em conta a sua profissão de comentadores. Criam uma imagem, e vivem de acordo com ela. Precisam de compreender os ventos que sopram e adaptar as suas “opiniões” para preservarem as suas audiências. Reféns da sua estratégia profissional, perdem muita da sua independência e liberdade.

Além das suas estratégias de carreira, os comentadores profissionais fazem igualmente política. Nada do que dizem ou escrevem é desinteressado do ponto de vista político. Para perceber as suas “opiniões” é necessário entender quais são os seus motivos, as suas intenções e os seus objectivos políticos. Tal como acontece com a guerra, na famosa fórmula de Clausewitz, o comentário tornou-se uma forma de prosseguir interesses políticos. Desde que seja assumido, nada tenho contra os comentadores profissionais.