A ideia de partir é auspiciosa. Desligar tudo e de tudo. Foco no ir. Começar a sentir a força propulsora dos motores e experimentar uma sensação de poder em conciliação com o vigor do movimento de aceleração. Numa fracção de segundos, vive-se o curto intervalo de um tempo suspenso entre o passado que fica para trás e o futuro imediato da antecipação do voo. Dá-se a ignição de um sorriso espontâneo e involuntário, provocado pela suave adrenalina. Talvez pela reminiscência do frio sentido na barriga aquando outras velocidades de tempos infantis, quando o carro entrava no túnel em descida e subida súbita.

Descolar possibilita o soltar das camadas de problemas e preocupações agarradas à pele psíquica. Por momentos, predomina o verbo largar. Impera o desígnio da evasão. Experimenta-se a sensação de liberdade. Cumpre-se a vontade de elevação para grandes altitudes. Deixar a terra firme, largar as amarras, e entrar no espaço aéreo é sinónimo de escape, autonomia, independência. Na intimidade do nosso corpo ressoa um grito do Ipiranga que a máscara social abafa e filtra para os ouvidos dos outros. O futuro para além não interessa. Só importa sentir a energia do movimento presente. Não há espaço para o pensamento. Somente para a sensação.

O dia-a-dia pautado por obrigações e afazeres cansa-nos, e em algumas fases de maiores dificuldades, desgasta-nos. Regemo-nos num quotidiano pautado mais pelo dever do que pelo prazer. Passamos a maior parte do tempo da nossa vida ocupados e mergulhados em compromissos. Logo, poder desatar esses nós deve ser conseguido de tempos a tempos. Procuremos deixar lembranças e ideias pré-concebidas que influenciam a nossa leitura do mundo. Devemos procurar encontrar um estado de pousio e sem memória, lembrando a expressão de Wilfred Bion, proeminente psicanalista inglês na década 60/70/80. Deixarmo-nos invadir e surpreender pelo advir da novidade, sem medo do desconhecido. Sermos capazes de suspender a expectactiva.

Realmente devia ser implementado um regime de escapadinhas acompanhado por um cardápio repleto por um sortido de deleites à escolha do bel-prazer de cada um. Devíamos ter essa liberdade de acção de tempos a tempos. Para colmatar as injustiças da vidinha, outros horizontes precisam ser olhados e vistos com olhos curiosos. Procurar, nem que seja dentro de nós, a oportunidade mental de descolar.

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É importante termos a percepção que existe mais mundo para além do nosso e que podemos mudar o que não gostamos e não nos faz bem. Temos essa autonomia, essa responsabilidade. Só precisamos de levar na bagagem bons objectos internos. E, quando for tempo de aterrar, logo se vê.

anaeduardoribeiro@sapo.pt