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A asma é uma doença inflamatória crónica dos brônquios, que existe em cerca de 7% da população portuguesa.1 Em princípio, um doente asmático vai ser asmático toda a sua vida e, portanto, a asma não vai passar. No entanto, uma gestão correta da doença (que pode implicar medicamentos diariamente, mas que também envolve a prática regular de exercício físico, uma dieta equilibrada para prevenir obesidade e cuidados no dia-a-dia com estímulos que devem ser evitados, nomeadamente poluentes, tabaco e substâncias alergénicas) deve permitir, na grande maioria dos asmáticos, uma vida e uma qualidade de vida totalmente normal2. Inclusivamente, muitos asmáticos bem controlados podem ter longos períodos em que estão sem sintomas e sem necessidade de qualquer medicação.2 Mas mesmo neste tipo de doentes, que aparentemente estão “curados” deve manter-se um acompanhamento médico regular para detetar precocemente sinais de reativação da doença ou sinais de pioria das alergias que estão na base da asma, de forma a poder-se recomeçar o tratamento regular e impedir que o agravamento se prolongue no tempo, o que vai tornar o tratamento menos eficaz.2

Em Portugal, o grande desafio que ainda existe é o elevado número de doentes asmáticos, que ou não tem esse diagnóstico ou não está a fazer a medicação adequada, o que se traduz em mais recursos aos serviços de urgência, algo que é particularmente nítido nas crianças com asma.1,5,6 Pior do que as idas às urgências podem ser as consequências da inflamação asmática não tratada, que vão desde um mau desenvolvimento pulmonar nas crianças até fenómenos de fibrose em adultos.2 Estes fenómenos podem traduzir-se, anos mais tarde, em situações de perda de função respiratória que são irreversíveis e que se acompanham de uma grande dificuldade e cansaço para realizar as atividades diárias.2 Assim, alertar as pessoas e seus médicos assistentes para esta doença dá a oportunidade de se evitar estas evoluções negativas, chamando-se igualmente a atenção da comunidade para o facto de existirem novas opções terapêuticas para os doentes com asmas menos controladas, que podem fazer a diferença nas suas vidas.

Durante a pandemia, o não diagnóstico intensificou-se pelo menor contacto médico-doente e pelo facto de as provas funcionais respiratórias terem sido adiadas, pelo receio da transmissão do SARS-CoV-2 durante o exame. Nos doentes já identificados, o impacto foi menor já que se conseguiu manter um contacto não presencial, com reavaliação clínica e renovação do receituário, estando os próprios doentes mais recetivos a cumprir uma medicação regular, por receio das complicações respiratórias da Covid-19.  Com a reabertura da atividade clínica cremos poder retomar as reavaliações periódicas destes doentes e retomar as avaliações funcionais respiratórias, sendo possível que venhamos a encontrar doentes que à distância pareciam bem controlados, mas que na observação presencial se verifica que não estão tão bem como julgavam. Nestes doentes é novamente importante reajustar a medicação e os cuidados, de forma a voltar a tornar totalmente normal o seu dia-a-dia, sem restrições significativas. A vacinação contra a Covid-19 de toda a população contribuirá seguramente para que esta reabertura não tenha retrocessos significativos. Está claramente recomendada a vacinação contra a Covid-19 a todos os doentes respiratórios e, de forma particular, aos que têm asmas mais graves ou menos controladas.3,4 Cremos que a vacinação será muito eficaz na prevenção das complicações respiratórias graves em qualquer pessoa, mas de forma particularmente relevante em pessoas com doenças respiratórias crónicas, como é o caso da asma.3

SARS-Cov2: Severe Acute Respiratory Syndrome (Síndrome Respiratória Aguda Grave) – Coronavírus – 2.; Covid–19: Doença por Coronavírus 2019

[1] Sa-Sousa et al. Clinical and Translational Allergy, 2012; 2:15

[2] Global Strategy for Asthma Management and Prevention, updated 2020. Global Initiative for Asthma. Disponível em  consultado a 24 de abril de 2021

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[3] GINA Guidance about COVID-19 and asthma, updated 30 march 2021. Global Initiative for Asthma. Consultado a 24 de abril de 2021

[4] Norma 002/2021 Campanha de Vacinação contra a COVID-19. Data da última atualização a 10.03.2021. Consultado a 24 de abril de 2021.

[5] Nunes et al. Asthma Research and Practice, 2017;3:1

[6] Doenças Respiratórias: Desafios e Estratégias, Direção Geral de Saúde, 2018. Acedido a 27 Abril 2021