O mundo mudou no último ano. Temos sido desafiados a repensar e a reorganizar as nossas expectativas, rotinas e relações. A nossa capacidade de aceitação e adaptação tem sido testada talvez como poucas vezes o terá sido no passado. Vivemos numa sociedade onde a noção de família é culturalmente central. Precisamos de contacto, afeto e proximidade. E agora, num período onde tipicamente reforçamos os laços familiares, como é o Natal, as transformações que temos vivido podem ser geradoras de ainda maior angústia e ansiedade.

Cada um de nós, individualmente e como parte da comunidade, tem sido convidado neste processo a olhar para a forma como lidamos com os idosos por força da pandemia por Covid-19. Como grupo de risco, os idosos têm sido alvo das nossas atenções com o objetivo de os proteger. Na sequência das medidas de prevenção implementadas, assistimos a períodos de limitação de visitas em instituições de saúde e de apoio a idosos, suspensão de atividades de cariz social e redução dos contactos sociais e mesmo familiares. Estas medidas, ainda que necessárias e adequadas, não deixam de ter repercussões na vida dos idosos e seus familiares e cuidadores.

A preocupação com o isolamento dos idosos e com as suas consequências tornou-se ainda mais evidente em tempos de pandemia e ganha uma conotação diferente com o aproximar desta época festiva.

Os idosos são um grupo mais frágil aos efeitos do isolamento, que se constitui como um fator de risco para a nossa saúde física e mental. É um fator de risco para aumento de mortalidade, hipertensão arterial, doença cardíaca, obesidade, diminuição da resposta imunitária, para o aumento do risco de depressão e ansiedade e de agravamento de problemas de memória e do declínio cognitivo nos idosos.

As dificuldades de acesso a meios digitais para comunicação e acesso a recursos online pode também contribuir para os efeitos nefastos do isolamento, bem como para a limitação de acesso a recursos que permitam manter estilos de vida saudáveis.

Para minimizar estes efeitos, os familiares, os cuidadores e as estruturas de saúde são fundamentais na identificação e sinalização de situações de risco de isolamento. É importante procurar ajuda especializada quando necessário. Durante a pandemia, as estruturas de saúde adaptaram-se às novas exigências, criando meios para manter a segurança de quem os procura, garantindo a continuação dos cuidados de saúde necessários.

Devemos, porém, salientar, que muitos idosos, pela sua experiência de vida, são muito resilientes. Ajudá-los a manter a saúde física e mental nesta fase tão exigente implica seguir algumas recomendações em linha com as orientações da Organização Mundial da Saúde, que podem ser úteis para idosos e seus familiares.

Neste sentido, devemos manter um acompanhamento médico regular e cumprir a toma da medicação habitual, procurando ajuda médica sempre que a situação de saúde se alterar. É essencial preservar ritmos de sono e rotinas diárias, mantendo-se fisicamente ativo, alimentando-se saudavelmente e evitando tabaco, café e álcool. Limitar a exposição a notícias sobre a pandemia, recorrendo a fontes credíveis, mantendo contactos sociais regulares através de plataformas digitais ou telemóvel, são outras medidas fundamentais. Muito importante, ainda, é aceitar a ajuda de terceiros: o apoio social pode melhorar o estado mental e diminuir o isolamento social e a solidão.

Com o aproximar das festividades, torna-se difícil aceitar as distâncias ou tomar decisões acerca dos encontros familiares. As entidades competentes têm alertado para várias opções possíveis, desde encontros por videoconferência à restrição do número de contactos no dia das festividades, com a realização de quarentenas, arejamento dos espaços, a par com as clássicas recomendações do uso de máscara, distanciamento social, higiene das mãos e, de preferência, encontros no exterior. Independentemente destas sugestões, a nível familiar torna-se fundamental planear como se pretende festejar o Natal, conversando abertamente com a família sobre as decisões a tomar e fazendo escolhas com as quais todos se sintam confortáveis e seguros.

Por fim, monitorize o seu familiar. Vigie sinais de declínio cognitivo ou de aparecimento de sinais de ansiedade ou depressão. Procure ajuda especializada – psicológica ou psiquiátrica – se necessário. O aconselhamento psicológico pode ser muito importante para aumentar a resiliência. Evite um discurso demasiado centrado no risco dos idosos e das suas limitações ou nos constrangimentos provocados pela pandemia. Reforce, antes, o seu valor e transmita segurança, esperança no futuro e afecto. Nunca se esqueça: manter distância física não equivale a distanciamento social. Isolamento não tem de ser o equivalente de solidão. E, caso tenha alguma dúvida, não hesite um segundo: consulte o seu médico.