Tem sido muito doloroso nas nossas vidas o impacto da pandemia do novo coronavírus. Ao ser declarada a 30 de janeiro de 2020, pela Organização Mundial da Saúde, como uma emergência de saúde pública internacional, não se adivinhava como se iria refletir tão drasticamente na atividade económica e social a nível mundial.

Não tem paralelo na história da humanidade o esforço de investigação e produção científica para travar a evolução desta pandemia numa corrida contra o tempo. Partiu-se do desconhecido. De vírus respiratório, como inicialmente foi reconhecido, sabemos hoje da sua capacidade invasora de outros órgãos vitais como o aparelho cardiovascular e o sistema nervoso.

A perda do olfato e do paladar é hoje reconhecida como uma sintomatologia que caracteriza a doença. Têm vindo a lume trabalhos científicos, descrevendo casos de encefalite, de acidentes vasculares cerebrais, de cefaleias persistentes. Ainda é cedo para conhecermos repercussões mais tardias.

Mais de 100 centros internacionais investigam, neste momento, coordenadamente, o impacto da Covid-19 no cérebro. Vários grupos de risco têm sido identificados, como diabéticos e hipertensos, mas acima de tudo os idosos, cuja vulnerabilidade tem vindo a engrossar o número de mortes a que assistimos diariamente. As complicações cardíacas e neurológicas, mais frequentes nas formas graves da doença respiratória, contribuem também para um desfecho fatal.

A patologia neurológica, associada a vírus com porta de entrada respiratória, não é nova e tem sido constatada em epidemias anteriores. Pode não ocorrer no decurso da fase aguda da infeção, mas mais tardiamente, semanas ou meses depois, as chamadas síndromes pós-infecciosas, devido a respostas imunitárias adaptativas. Assim pode acontecer com a gripe sazonal e ocorreu também na pandemia H1N1 em 2009-2010. Apesar do sentimento de pânico inicialmente gerado nesta última, não se tornou na catástrofe que hoje vivemos.

Contudo, algum conhecimento se adquiriu, que poderá servir de precaução para eventuais consequências da presente pandemia. Tal como agora, vários laboratórios desenvolveram vacinas. Uma delas, usada em vários países da Europa, foi responsável por acentuado aumento de casos de narcolepsia, uma doença que provoca sonolência excessiva, cansaço e quedas frequentes, com significativo impacto na qualidade de vida. Mas não foi só a vacinação a responsável pelo surto desta doença relativamente rara.

O próprio vírus da gripe H1N1 também desencadeou esta complicação, só mais tarde reconhecida. É evidente que foram raros os casos que desenvolveram esta doença, comparativamente aos milhões de casos de gripe registados, mas só posteriormente se veio a estudar e a reconhecer a suscetibilidade genética da população que foi atingida.

Mas paralelamente às investigações que estão a ser feitas, como podemos agir para evitar danos colaterais da pandemia na saúde neurológica? Voltando aos idosos, como têm vivido esta pandemia? Conscientes da sua vulnerabilidade, muitos vivem confinados ao espaço das suas casas, por vezes por insistência dos filhos, ou voluntariamente cumprindo as orientações das autoridades sanitárias.

Impressionou-me o caso de um homem de 90 anos, que cumpriu escrupulosamente o confinamento recomendado na primeira vaga de março e abril deste ano. Até então gozava de uma saúde privilegiada, mantendo as suas capacidades intelectuais e uma forma física invejável. Escorreito e ligeiro no andar, fazia a sua caminhada diária, convivia com amigos no café, lia o seu jornal diariamente. Nada fazia prever que um mês depois, a filha, ao convidá-lo para um passeio, o fosse encontrar curvado e trôpego, de passo curto e vacilante. Para seu espanto, o pai não se apercebera da transformação que aquele mês de confinamento operara em si. Não fora apenas um declínio físico, mas também mental. Desinteressado, quase apático, menos crítico, com pouca iniciativa de diálogo, triste.

Com o avanço na idade, a debilidade dos mecanismos de defesa e reparação do nosso organismo vai tornando cada vez mais difícil manter o equilíbrio homeostático e funcional face a múltiplos agentes agressores do meio externo e interno: vírus, bactérias, poluição, stresse emocional.

A pandemia veio trazer a perda de conexões sociais, pela ameaça que representa mantê-las, levando ao isolamento, chamemos-lhe solidão em muitos casos, ao abrandamento da atividade física, a um ambiente culturalmente menos estimulante, ao medo da doença, à partida de entes queridos e de pessoas conhecidas. Todos estamos em risco, pelo que não podemos pôr em causa as medidas necessárias para a contenção da sua progressão avassaladora, mas temos de estar conscientes de outras consequências a que essas medidas nos podem expor.

Pela sua fragilidade, o idoso está mais exposto ao declínio físico e mental. O exemplo descrito bem pode constituir o primeiro passo nesse sentido. Devem os cuidadores de idosos estar alertados para manter um ambiente mentalmente estimulante, atribuindo tarefas diárias, promovendo a autonomia, desenvolvendo atividades de lazer e exercício físico adequados à sua condição. Pelo maior sedentarismo, é altura para se optar por uma alimentação mais saudável, evitando a descompensação metabólica e o excesso de peso. É da prevenção da demência que se trata.

Não se deverá descurar também o controlo de condições mórbidas pré-existentes ou a avaliação médica perante novas complicações. Muitos doentes cardiovasculares, diabéticos, renais, descompensaram ou morreram pelo receio de ir a uma unidade de saúde.  Saiba que nesta fase aprendemos a prestar cuidados médicos e assistenciais com a segurança necessária.

Adiar a procura de ajuda médica é o oposto de prevenir os danos colaterais da pandemia. Se não tratarem as doenças de que sofrem, os idosos estão mais expostos a complicações graves relacionadas com a Covid-19.