Enquanto se aguarda a resposta do Tribunal Constitucional à fiscalização de medidas no ensino sobre identidade de género e apesar de tudo o que foi escrito e redito sobre o assunto, vale a pena frisar alguns pontos.

A “revolução do género” (“gender revolution”), como alguns lhe chamam, é uma invenção e, como todas as invenções, tem subjacente um modelo de negócio. Todavia, para não parecer uma invenção e para poder ser mais facilmente aceite pela sociedade, foi camuflada e preparada meticulosamente com antecedência, sendo assim, quanto mais não seja por isso, uma falsa revolução. Vemo-la chegar revestida de uma roupagem “científica”, utilizando linguagem e conceitos criados por essa pretensa ciência, um campo “científico” dominado por especialistas em que o cidadão comum, dotado de bom senso, está excluído: não pode opinar nem afirmar evidências, porque isso seria pôr em causa a Ciência e ninguém quer ser chamado de retrógrado…

Que modelo de negócio é então esse que acompanha a invenção? Matteo Salvini, o ex-ministro do Interior de Itália, denunciou-o recentemente, ao proibir a venda de medicamentos inibidores da puberdade, porque (sic) “(…) a puberdade não é uma doença”.

Por um momento, vistamos a pele de um empresário da área química ou farmacêutica. Habituadas a consumir produtos que as pessoas não sabiam que tinham necessidade (veja-se o caso dos smartphones), os consumidores estão hoje preparados para adoptar novas práticas, ideias, produtos, desde que lhes sejam apropriadamente propostas.  Pensemos então na mina de ouro, que representaria dispor de um mercado alvo formado por vastas camadas populacionais, nos mercados nobres, o das pessoas com problemas de “identidade de género”. Seria certamente aliciante para um estratega empresarial  o potencial de faturação que um paciente de disforia de género representa, dependente de fármacos por toda uma vida… Os olhos reluziriam aos acionistas industriais, ao pensarem na parafernália de medicamentos que iriam ser necessários. E haveria certamente muito trabalho a faturar para o acompanhamento psicológico/terapêutico/cirúrgico de toda a população afetada por problemas de género, população essa que vive em países ditos ricos, os quais, sem dúvida, poderiam pagar todo esse acompanhamento. Pagar, seja do próprio bolso, seja por via dos impostos através do governo. Infelizmente, não estamos a exagerar: no Reino Unido, registou-se um aumento de 1000% dos casos de crianças com problemas de “género”.

À tragédia do chamado Patent Cliff (ravina de patentes), ocorrida recentemente, em que medicamentos blockbusters viram expirar, por fim de termo, as respetivas patentes, vai suceder-se finalmente, um novo eldorado. Infelizmente, criando uma nova tragédia, essa sim com efeitos devastadores, a das pessoas que nunca teriam problemas de identidade de género, mas que passaram a tê-los depois de uma conveniente lavagem cerebral.

Acresce que este modelo de negócio, a expensas da saúde física e psíquica das famílias e das pessoas concretas dos países mais ricos, inventado pelo setor privado, assenta, como uma luva, na mão de interesses complementares na esfera pública: o interesse dos que se apoiam no marxismo, em particular no chamado “marxismo cultural” para chegar ao poder e exercer o poder. Com efeito, antes da indústria química ou farmacêutica se lembrar do negócio da “gender revolution”, já a escola de Frankfurt, nos idos anos 20, tinha proposto levar a cabo uma revolução comunista, não com base na luta de classes, mas com base na luta entre opressores e oprimidos sexuais.

A “gender revolution” é ainda apoiada por uma outra classe de interesses: o ambientalismo agressivo, favorável a um governo mundial para a salvação do planeta, que casa bem com os interesses das elites mundialistas, as quais, para se desenvencilharem nos seus negócios, preferem ter que negociar apenas com um governo mundial em vez de ter que fazê-lo com múltiplas soberanias.

 Em comum uma coisa: isolar o ser humano do seu semelhante, em particular, da sua família e da sua nação, realidades tradicionais que convém abater pela diluição, inventando-se “famílias generalizadas” e reforçando-se poderes legais de origem supranacional. O indivíduo é mais suscetível de seguir o interesse dos outros, de entregar-se a vícios e aos respetivos consumos e até de chegar ao cúmulo de se negar e ambicionar ilusões impossíveis e autodestruidoras, do que o grupo familiar ou nacional, que pressupõe união por valores perenes e não mera associação circunstancial. O ser humano, assim reduzido a indivíduo, fica “liberto” de todas noções naturais e tradicionais, que lhe foram apresentadas como construções sociais fictícias opressoras. E sente-se livre. Tem a liberdade de escolher a escravatura que perceciona como libertadora. Assim, tanto é livre de comprar um par de sapatos pretos clássicos, como de consumir o estupefaciente que alguém lhe disse ser bom, como de percecionar-se no género errado e de procurar intervenção farmacológica e cirúrgica que o “corrija”. Poder-se-ia continuar e fazer aqui uma galeria de horrores. Ora, se houver uma família operante que previna ou limite este entrar do indivíduo em roda livre (noutros termos, uma “opressão retógrada”), ou se houver uma autoridade nacional que proíba ou que onere fortemente as atividades comerciais relacionadas, estas não darão o lucro que, de contrário, poderiam dar.

Este estado de coisas aponta para uma conclusão: as famílias estão a ser submetidas a fortes ventos de borrasca onde parece que a lei natural já não importa. Que fazer então?

Em primeiro lugar, a importância do apoio a forças políticas que se afirmem pelos valores e não descartem as causas fraturantes, como se isso fosse uma subquestão política. Hoje, mais do que nunca, a importância dos valores, e não meramente o modelo económico, demonstra a sua importância com uma evidência gritante.

Em segundo lugar, a força do mercado. Marcas que adotem práticas contrárias aos valores que a família defende, não entram em casa.

Vale a pena citar aqui dois casos recentes de sucesso nesta batalha civilizacional: o da Nivea e o da Gillete. No primeiro caso a empresa recusou-se a alinhar na publicidade proposta pela sua agência, direccionada a um público LGBT, tendo recebido um forte apoio nas redes sociais. No segundo caso a empresa de máquinas de barbear Gillete teve prejuízos de 8 000 milhões de Dólares porque publicou um anúncio publicitário atacando a chamada “masculinidade tóxica” e que incluía imagens que mostravam um pai a ensinar a filha, que se identificava com um homem, a barbear-se. Em consequência, uma associação denominada “Um milhão de mamãs” alertou as pessoas para o facto de (sic) “(…) a menos que quisessem que o seu dinheiro fosse usado para a apoiar uma ideologia que os Pediatras qualificam de abuso de crianças seria melhor encontrar outra marca”, do que resultou o colossal prejuízo.

Resta a esperança que a estes casos muitos outros se sucedam e a maré mude no setor privado.

Quanto à necessária mudança política, será necessário que apareça uma nova casta de políticos, que demonstrem concretamente o empenho no bem comum sem servilismo aos interesses elitistas e mundialistas.

João Marcelino é engenheiro e Rui Pereira Bento é Físico MsC