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Quem não sente um tambor no peito, um eco na alma, pela ressonância corporal que se faz sentir perante a vibração e o ritmo de uma música que nos toca? Esbraceja, mexe as ancas, desliza os pés, se for para dançar. Ou, sorri, abana a cabeça, bate a mão na perna, num modo jazzístico. Fecha os olhos, dedilha os dedos, em estilo erudito.  A música desentorpece o corpo formal. O som provoca um efeito imediato e uma reacção epidérmica. A música desperta um estado de alma. Ouvir dada música pode ter o efeito de nos acalmar ou inflamar. De nos virar para fora e nos tornar expansivos, ou para dentro, e deixar-nos introspectivos. Pode fazer rir, pode fazer chorar. Talvez seja, de todas as formas de arte, a mais emocionante e impactante.  É emocional, mental, corpórea.

É sabido que Freud não desenvolveu uma grande relação com a música. Embora em relatos de seu filho, esse contrariava tal dizendo que o pai até ouvia e apreciava Mozart. O próprio Freud assumiu que tinha grande dificuldade em comover-se com aquilo que não era capaz de explicar porque o afectava. Assumia a sua racionalidade e parecia querer destacar-se da música como algo ligado ao sentimento. Explicou-nos no entanto que a música funcionava como um activador de memórias, despertando assim emoções. Afinal, de facto é verdade que a música pode fazer-nos viajar para o passado e/ou pode estimular o mundo da fantasia.

Didier-Weill, discípulo do psicanalista francês Jacques Lacan, no final dos anos 90 desenvolve um conceito introduzido pelo seu mentor, o da pulsão invocante (onde a música se inscreve). Explica que esta pulsão é a força que conduz a pessoa à blue note, aquela nota do jazz fora da escala clássica, que transcende os tempos possíveis e previsíveis. Psicanaliticamente, lança o sujeito num tempo anistónico, num tempo mítico, invocado pelo som primordial que é a voz materna. Neste lugar, de tempo suspenso, podemos sentir que estamos alheados da realidade, invadidos pelas notas que nos entram tal ar que respiramos, experimentamos uma espécie de indiferenciação e do dito sentimento oceânico enunciado também por Freud, aquele sentimento primitivo do ego no qual a criança não se distingue do mundo exterior, não percepcionando ainda que não existe uma separação entre o seu Eu e o seio materno que a alimenta e a satisfaz. Este sentimento oceâncio também se vive na experiência religiosa, de fusão e comunhão total com o mundo envolvente.

A música pode provocar sensações tal o encontro entre os amantes. Pode arrepiar e fazer sentir prazer, despertando todos os sentidos. Eleva-nos. Ou pode suscitar uma espécie de prazer dionisíaco por um semi-estado de embriaguez que leva à evasão e em alguns momentos à catarse (lembremos os rituais das danças ao som dos tambores de algumas culturas tradicionais).

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Para onde nos pode levar uma música? Para qualquer lugar onde seja capaz de voar o nosso pensamento. O imediatismo do toque pelo som tanto nos reconcilia com contradições, nos faz sentir o trágico universal, ou nos regozija com o desejo satisfeito quando nos sentimos heróis, tigres e dragões.

Sem dúvida, a música tempera a vida e traz um colorido à realidade por fazer ultrapassar o mundano e rotineiro. Poder levar-nos para os lugares que nos apetecer imaginar, permite-nos experimentar uma sensação de liberdade, desembaraço, arejamento, emancipação, até afirmação de nós.

Tem outro gosto a nossa vida com música de fundo. E podemos fazer uso de diferentes músicas consoante o contexto interno que queiramos mergulhar.

anaeduardoribeiro@sapo.pt