Em 2016, a campanha de Trump para a Presidência dos Estados Unidos foi beneficiada por dois fatores externos ao eleitorado americano: uma operação concertada por parte dos serviços de inteligência militar da Rússia com a Wikileaks para a publicação de material obtido ilegalmente, e uma intervenção no tecido político e social americano com uma campanha de polarização e desinformação por parte da empresa Internet Research Agency, sediada em São Petersburgo. O primeiro foi comprovado pelo Procurador-geral Robert Mueller e o segundo foi confirmado num conjunto de relatórios sobre “medidas ativas” por parte da Rússia para interferir nas eleições presidenciais de 2016, tornados públicos pela Comissão de Inteligência do Senado americano.

Porém, esses dois processos, na altura das eleições, não eram tão claros a nível de aplicação e de funcionamento como se tornariam mais tarde. Sabe-se que existia informação, ainda antes de a eleição acontecer, sobre as intenções de Moscovo em prejudicar a candidata Clinton e ajudar a eleger Donald Trump. No entanto, o líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell recusou-se a assinar uma declaração conjunta com a Casa Branca para divulgar publicamente essa informação. O mesmo McConnell que se recusa a passar leis provenientes da Câmara dos Representantes que visam o combate à interferência nas eleições. Passados quatro anos, a campanha para a reeleição de Trump está preparada para ir muito mais longe. Não só a campanha para a reeleição do candidato se fundiu com o Estado americano, como os republicanos já não escondem que estão a tentar influenciar ilegalmente as eleições.

Quatro exemplos são paradigmáticos desta nova forma de “preparar” uma reeleição. Estas, para além de outras conhecidas, são aplicadas e refinadas, como é o caso da redistribuição de eleitores por distrito, a diminuição de mesas de voto em comunidades de maioria negra ou latina, a retirada de votantes dos cadernos eleitorais, a introdução de dificuldades acrescidas no processo de votar com taxas ou documentos de identificação.

No ano com uma pandemia que já reclamou quase 200 mil mortos e mais de cinco milhões de infetados, a Administração Trump tratou de colocar um lobista republicano à frente do serviço federal que mais efeito pode ter para os americanos votarem em segurança: o correio federal. Louis DeJoy, o U.S. Postmaster General, ordenou o retirar de máquinas que separam o correio, o recolher de caixas de correio onde se podem deixar os boletins de voto, a redução do pagamento de horas extraordinárias e a diminuição das rotas de recolha de correio. Um conjunto de audições na Câmara dos Representantes fez o postmaster recuar um pouco, mas o Presidente Trump já fez saber que, se perder para Biden, irá colocar em causa os resultados eleitorias, argumentando que as votações por correio são “fraudulentas”.

No Senado, os senadores Ron Johnson, do Wisconsin, presidente da Comissão Homeland Security & Governmental Affairs, e Chuck Grassley, de Iowa, presidente da Comissão para as Finanças, têm filtrado a informação de um legislador ucraniano, Andrii Derkach, que foi comprovado pelos serviços de inteligência americanos como agente do Kremlin. A informação passada por Derkach tem o propósito de prejudicar a campanha de Joe Biden e vai resultar num relatório e possíveis audiências sobre a “capacidade de Biden para ser Presidente”. Estas informações vão desde uma inexistente campanha de influência da Ucrânia nas eleições de 2016, até acusações de corrupção envolvendo Biden e o seu filho, Hunter Biden. De acrescentar que Derkach trabalhou em proximidade com Rudy Guliany, ex- de Nova Iorque e um dos advogados do Presidente Trump.

O Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional informou a Câmara dos Representantes que não partilhará informação sobre questões de segurança eleitoral, isto no seguimento dos serviços de inteligência terem feito saber que continuam as operações de interferência nas eleições por parte da Rússia, a que se acrescenta a República Popular da China e a República Islâmica do Irão. Isso causou que os responsáveis Democratas na Câmara dos Representantes e do Senado enviassem uma carta ao Diretor do FBI, expressando a preocupação que o Congresso esteja a ser alvo de “uma campanha internacional concertada para branquear e ampliar a desinformação, com o objetivo de influenciar a atividade do Congresso, o debate público e a eleição presidencial”. Na mesma linha, o Department of Homeland Security ocultou do relatório de julho, que envia para as delegações regionais, que existiam avisos “altamente fiáveis”, que a Rússia estava a tentar interferir nas eleições ao insinuar que o candidato Biden tem “problemas mentais”.

Finalmente, o Procurador-geral dos Estados Unidos, William Barr, parece estar a preparar uma “surpresa de Outubro”, quebrando uma norma do Departamento de Justiça de não libertar informação para o público sobre investigações em curso na véspera de uma eleição (apesar de o antigo líder do FBI, James Comey, já o ter feito em 2016 em relação à candidata Hillary Clinton). Esta “surpresa” parece ser um “relatório preliminar”, resultante da investigação liderada por John Durham, U.S. Attorney em Connecticut, que está a investigar as origens da investigação do FBI à interferência russa nas eleições de 2016. Isto, apesar de Michael Horowitz, o Inspetor-geral do Departamento de Justiça ter declarado que a investigação foi plenamente justificada apesar de alguns erros processuais. No entanto, continua a “investigar-se os investigadores” e a influência por parte do Procurador-Geral para esta se tornar numa operação política, parece tão óbvia, que uma das investigadoras principais, Nora Dannehy, pediu a demissão, alegadamente por causa deste tipo de pressão externa.

Trump tem afirmado que não aceitará os resultados da eleição caso não vença. Inclusive, acha-se no direito de governar por mais quatro anos, em clara contravenção à Constituição americana, argumentando com a existência de um “deep State” – a existência de um governo sombra paralelo ao executivo eleito -, ao qual recorre cada vez que as suas ações, ou as da sua Administração, são recusadas por funcionários públicos que juraram defender a Constituição. No entanto, parece que um “Estado profundo” existe realmente. E está a fazer tudo o que pode para ajudar a reeleger o Presidente.