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Os mercados estão constantemente em mudança e a adaptarem-se às exigências, preocupações e gostos dos consumidores. Nos últimos anos, temos verificado a transformação de vários produtos de acordo com as tendências do mercado, tais como a redução de açúcar, a sustentabilidade de produção e dos produtos comercializados, a diminuição de elementos artificiais nos produtos alimentares ou receitas mais saudáveis e menos prejudiciais para a saúde.

No que diz respeito ao setor de bebidas, se viajarmos pela Europa, Inglaterra ou Estados Unidos da América podemos encontrar várias que vão ao encontro das necessidades do consumidor e que são completamente diferentes e disruptivas, quando comparadas às disponíveis no mercado português. Bebidas sem açúcar, probióticas, picantes, com pedaços de fruta, de aloé vera ou tequila proveniente de fruta são alguns dos exemplos da oferta presente além-fronteiras. Aliás, em países como o Reino Unido, se analisarmos as novidades divulgadas pelo Beverage Daily, mensalmente surgem cerca de 10 novas bebidas nas prateleiras dos supermercados britânicos.

Porém, em Portugal, estamos ainda muito atrasados no que diz respeito à inovação no mercado de bebidas alcoólicas. Em comparação com o setor alimentar, que tem vindo a acompanhar o perfil de um consumidor mais consciente com aquilo que ingere, podemos dizer que o mercado de bebidas estagnou. Se olharmos para os últimos 20 anos, uma das últimas inovações a entrar no mercado foram as cidras e só, mais recentemente, o fenómeno das hard seltzers – bebida alcoólica com menos calorias e açúcar – começou finalmente a chegar a Portugal.

A verdade é que não podemos ignorar os novos hábitos da geração millenials e da geração Z, sendo que algumas das suas intolerâncias e preocupações alimentares acabam por fazer com que seja urgente criar soluções que venham responder a novas necessidades. Neste sentido, o setor de bebidas deverá olhar para o futuro e começar urgentemente a desenvolver uma transformação semelhante à que ocorreu no setor alimentar. Utilizar ingredientes naturais e nacionais na conceção das suas bebidas, desenvolver ofertas para um target exigente e preocupado em saber o que ingere e ser mais transparente sobre a origem e história do produto, são as tendências que, segundo a empresa privada inglesa de pesquisa de mercado Mintel, irão dominar o mercado a nível internacional nos próximos 10 anos e serão como uma mais-valia aos olhos do consumidor.

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Segundo a Forbes, a pandemia de Covid-19 e as preocupações suscitadas por esta estão a fazer com que o mercado tenha de se desenvolver de forma mais rápida para oferecer aquilo que as pessoas querem: produtos de qualidade, que não prejudiquem a sua saúde, mas sim que a preservem, ou seja, opções mais saudáveis, com menos calorias, orgânicas, biodinâmicas, práticas e saborosas.

Isto faz com que nos próximos anos os grandes players presentes em Portugal tenham de adaptar os produtos existentes e desenvolver outros, nos quais privilegiem ingredientes nacionais na confeção, metodologias de produção e comercialização mais sustentáveis, criação de produtos que vão ao encontro de um estilo de vida saudável, respeitem as ideologias e preocupações do consumidor e desenvolvam valores e princípios sustentáveis de acordo com o expectável pelo seu target.

Já vemos algumas marcas a tentar acelerar esta inovação, mas existe ainda muito por desbravar no mercado de bebidas nacional e, até mesmo internacional, uma vez que até agora, e ao contrário daquilo que ocorre na indústria alimentar, as bebidas alcoólicas não possuem a obrigatoriedade de apresentar uma tabela nutricional na sua embalagem. Isto acaba por fazer com que os consumidores desconheçam aquilo que estão a ingerir e consumam um grande número de calorias ou de substâncias prejudiciais para a saúde, uma vez que vários especialistas defendem que uma grande proporção da obesidade é causada pela ingestão de bebidas alcoólicas. Todavia, a União Europeia está a analisar a obrigatoriedade da presença da tabela nutricional nas bebidas alcoólicas e acredito que os próximos anos serão essenciais para criar novas soluções e também uma oportunidade para empreendedores com ideias nestas áreas.